17 de maio de 2013

Muito pau, pouca buceta ou (Quase) Tudo sobre minha mãe




Muito pau, pouca buceta

ou

(Quase) Tudo sobre minha mãe



Visito minha mãe com uma frequência que, reconheço, deveria ser maior. Ela, já com noventa anos, reclama que não a vejo mais vezes.  E não é só visitar por visitar, ela sempre mostra que ainda tem muito a me ensinar. E eu, claro, para aprender. Outro dia me contou que agora ao lado do sobrado onde mora instalou-se um puteiro. Sim, é dessa forma que nós, da Hulha Negra, nos referimos aos lugares onde mulheres trepam por dinheiro, com vários homens, várias vezes no mesmo dia. Pensei cá comigo, minha mãe já deve estar caducando, coitada... Mas, nas poucas horas em que fiquei em sua companhia mateando devagarinho na sacada do sobrado percebi que muitas motos, essas que chamamos de moto-taxi, chegavam na tal casa e descarregavam muitas mulheres, ou saíam dali com outras tantas.


Minha mãe mora no centro, na faixa que a prefeitura chama de zona (?) residencial. A tal casa, essa onde se estabeleceu o puteiro, não é muito grande, quase não tem pátio. Vê-se, passando ao largo, que acomodaria com certo conforto uma família composta por um casal e uns dois filhos, por aí... No entanto, sem o alvará dos bombeiros (coisa que está na moda) e outras licenças que o caso – e a casa – exigiriam, o lugar mantém um ritmo frenético do entra e sai (estou falando de pessoas, é claro) que dá gosto de ver.

É um festival de carros com placas de cidades vizinhas manobrando, buzinando, saindo e estacionando – inclusive - em frente à casa de minha mãe, e as tais motos – essas que carregam coisas de comer - entregando ou levando muitas damas sabe-se lá para onde.

Mas, do alto de seus noventa anos, minha mãe que ainda insiste em morar sozinha, me explicou que isso é por causa do Polo Naval.


- É muito homem, meu filho, eles vêm de longe, deixam as suas mulheres e as suas famílias em suas cidades de origem porque precisam trabalhar no Polo. Li no jornal que já são milhares. Todos de muito longe. E virão mais, segundo informou hoje na televisão. É o desenvolvimento chegando, continuou ela, o tal crescimento de que falam os políticos. Mas vê bem, meu filho, eu disse crescimento, não o desenvolvimento social que o teu pai tanto falava e tanto almejamos. E arremata com um ar de quem já viu de tudo nesta vida enquanto mais uma moto chega na casa ao lado trazendo na carona uma moça com cara de uns dezesseis anos:


- É muito pau para pouca buceta, meu filho... 
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16 de maio de 2013

L’eclisse



O Ciclo "A Filosofia e o Cinema existencial" exibirá, na próxima sexta-feira, dia 17 de Maio, o filme "O eclipse", de Michelangelo AntonioniCineasta italiano (1912-2007), Antonioni é autor de obras cinematográficas como "Blowup" e "A noite". O IV Ciclo de Cinema, promovido pelo Departamento de Filosofia da UFPel, sob a coordenação do professor dr. Luís Rubira, ocorre todas as sextas às 20h, no Centro de Integração do Mercosul, em Pelotas. A entrada é FRANCA (retire sua senha no local, no dia da sessão, em horário comercial).
A programação completa do CICLO está disponível na página da UFPel:

O eclipse L’eclisse, 1962, Itália/França. Direção: Michelangelo Antonioni. Com: Monica Vitti, Alain Delon e Francisco Rabal. Em Roma, uma bela e elegante jovem rompe o relacionamento vazio que tinha com o funcionário de uma embaixada. Inquieta, complexa e com um sentido poético da vida, ela conhece alguém que é seu oposto e que trabalha na bolsa de valores da cidade. O tecido tênue do contato entre duas pessoas e, sobretudo, a ausência de si e a incomunicabilidade são os fios condutores desta obra estético-existencial do mestre Antonioni (126min).
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14 de maio de 2013

O pôr do sol na minha cidade - XL, O Hermena

Foto José Pedro Granero

Reencontrei neste veraneio, no Hermena, o amigo José Pedro Granero que conheci nos anos 70 na CEF. Em meio a árdua tarefa de "conter o avanço do mar" sobre o pátio da sua casa, entre uma pá e outra de areia, ele deliciava-se, na verdade, com a bela paisagem do Hermena, que é como chamamos a maravilhosa Praia do Hermenegildo. Hoje, aposentado das lides bancárias, o Granero ocupa-se também com as artes da fotografia. Eu até diria que, como um ex-economiário, o Granero é um excelente fotógrafo... Esta foto está publicada no mural do seu Facebook.

"Balneário do Hermenegildo - o Hermena. Maior Praia Oceânica do Litoral Brasileiro e da América Latina, localizada no Município de Santa Vitória do Palmar, distante 15 km do (centro) da cidade de Santa Vitória do Palmar, RS, no Extremo Sul do país.
José Pedro Granero"
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12 de maio de 2013

Amor materno

Foto Marcelo Soares


Amor materno
Juremir Machado da Silva (*)

Aprendi, ao longo dos anos, que algumas pessoas temem citações. Acham que o texto fica erudito e incompreensível. Não percebem que citações podem ser simples e bem explicadas sem exigir que se vá estudar o autor citado. Curiosamente muitas dessas pessoas costumam ser implacáveis na crítica à falta de cultura e na exigência de métodos escolares baseados na disciplina quase militar. Para falar do Dia das Mães, além de aproveitar para dizer que amo a minha e que ela sempre acreditou que estudar era o melhor para seus filhos, citarei dois fantásticos estudiosos: Philippe Ariès, de “História Social da Criança e da Família”, e Elisabeth Badinter, autora do polêmico “O Mito do Amor Materno”. 

Esses dois pesquisadores sustentam que a criança, como a vemos, é uma “invenção” recente. Badinter ousa afirmar que o amor materno não é instintivo, mas “construído” culturalmente. Ou, ao menos, capaz de ser inibido por práticas culturais. Já li esses livros dezenas de vezes. Eles me inquietam, provocam e ensinam. Durante séculos, as crianças das classes abastadas eram entregues a amas, que as amamentavam, longe das mães, até pelos 7 anos. A partir daí, eram pequenos adultos, pau para toda obra. O trabalho infantil, que muitos ainda defendem, era a norma. Os pais escolhiam um filho, normalmente o mais velho, para investir e esqueciam-se dos outros, especialmente das meninas. Nos séculos XVIII e XIX, aconteceu a virada, a descoberta do valor da educação: as crianças foram enclausuradas em colégios. 

Ariès observa que existia um afrouxamento do laço afetivo entre pais e filhos e que “podemos imaginar a família moderna sem amor, mas a preocupação com a criança e a necessidade de sua presença estão enraizadas nela”. À família contemporânea, a nossa, fixou-se os mais nobres objetivos de todos os tempos: educar pelo amor, coibir o trabalho infantil, ensinar sem violência, inculcar valores pelo diálogo, não separar os filhos dos pais, não fazer distinções entre os filhos e tratar a infância como um período especial. Badinter foi mais longe: “Que vem a ser um instinto que se manifesta em certas mulheres e não em outras?”. Muito mais longe: “Em vez de instinto, não seria melhor falar de uma fabulosa pressão social para que a mulher só possa se realizar na maternidade?”

Ser mãe no nosso tempo tem um gosto especial. Significa querer ser sem que haja uma obrigação. O amor pelos filhos vai além do instinto e engloba dimensões morais, de prazer e de comprometimento. Com todas as contradições da nossa época, nunca a família teve tanto valor. Ela não se baseia mais na obediência, na autoridade e na disciplina, mas exclusivamente no amor. Badinter profetizou: “Registremos, simplesmente, o nascimento de uma irredutível vontade feminina de partilhar o universo e os filhos com os homens”. Ariès mostra que foi longa a educação dos pais para que não “adestrassem” seus filhos pelo chicote. A palmada, última expressão do castigo corporal, está na alça de mira. Parabéns às mães que vivem hoje todos esses desafios. 
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Juremir Machado da Silva publica diariamente no jornal Correio do Povo
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10 de maio de 2013

Os Miseráveis


Foto LC Vaz

Os Miseráveis (*)
Sergio Vaz

Vitor nasceu no jardim das margaridas
Erva-daninha nunca teve primavera
Cresceu sem pai sem mãe sem norte sem seta
Pés no chão, nunca teve bicicleta

Já Hugo não nasceu, estreou
Pele branquinha, nunca teve inverno
tinha pai, mãe, caderno e fada-madrinha

Vitor virou ladrão
Hugo salafrário
Um roubava por pão
O outro para reforçar o salário
Um usava capuz
O outro gravata
Um roubava na luz
O outro em noite de serenata
Um vivia de cativeiro
O outro de negócio
Um não tinha amigo, parceiro
O outro sócio

Retrato falado Vitor tinha cara na notícia
Enquanto Hugo fazia pose pra revista
O da pólvora apodrece impenitente
O da caneta enriquece impunemente
A um só resta virar crente
O outro é candidato a presidente
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Sergio Vaz é fundador da Cooperifa

(*) Do livro "Colecionador de pedras", Global Editora
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9 de maio de 2013

Os amantes de Pont-Neuf



O Ciclo "A Filosofia e o Cinema existencial" exibirá, na próxima sexta-feira, dia 10 de Maio, o filme "Os amantes de Pont-Neuf", de Leos Carax. Cineasta francês (1960), Carax é autor de obras cinematográficas pouco conhecidas no Brasil. O IV Ciclo de Cinema, promovido pelo Departamento de Filosofia da UFPel, sob a coordenação do professor dr. Luís Rubira, ocorre todas as sextas às 20h, no Centro de Integração do Mercosul, em Pelotas. A entrada é FRANCA (retire sua senha no local, no dia da sessão, em horário comercial).
 
A programação completa do CICLO está disponível na página da UFPel:

Les amants du Pont-Neuf, 1991, França. Direção: Leos Carax. Com Juliette Binoche, Denis Lavant e Klaus-Michael Gruber. Sofrendo de uma doença rara e por uma relação amorosa frustrada, Michèle abandona sua vida de classe média e passa a morar na ruas de Paris. Na ponte mais antiga da cidade, que passa por reformas para as comemorações do Bicentenário da Revolução Francesa, ela conhece Alex, um morador de rua que faz perfomances em pirotecnia. O jogo do acaso e a destruição de preconceitos como momentos cruciais para decidir sobre os rumos da existência, a partir do amor (120min).
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8 de maio de 2013

El dia que el Papa fue a Melo


Há 25 anos o Papa João Paulo II esteve aqui bem pertinho, na cidade de Melo, no Uruguai. Essa inusitada visita a um lugar com densidade demográfica baixíssima, num país de poucos católicos, foi a fonte de inspiração para o escritor Aldyr Garcia Schlee escrever El dia que el Papa fue a Melo, publicado primeiramente em espanhol por Ediciones de La Banda Oriental

Dizem que Karol Józef Wojtyła, olhando a imensa pampa pela janelinha do avião, teria dito mais ou menos assim: Quanta terra vazia... O Cuento V, plagiado para o cinema como "El baño del Papa" faz parte desse livro.


O Cuento VIII, El espejo partido, cujo tema ilustra a capa da primeira edição, é o meu preferido. A Editora ARdoTEmpo prepara uma terceira edição do livro, em português, ainda para este ano. A epígrafe, no original em espanhol, informa: "El día 8 de mayo el Papa Juan Pablo II estuvo en Melo, Uruguay; el autor, no."
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