1 de agosto de 2015

Porta dos fundos

Foto LC Vaz

PORTA DOS FUNDOS

Angelo Alfonsin

naquele dia
ele nem viu o sol nascer
olhou os sapatos sob a cama
como se quisesse contar quantos
passos já dera até aquele dia
desde que pisara o chão
pela primeira vez
viu que eram muitos
mas que nada significava
passos vacilantes
que iam para lugar nenhum
passos em descompasso
com o coração
por isso decidiu que partiria
por um caminho
em que não precisaria mais
de sapatos
e
se foi

18 de junho de 2015

Cal Max



Foto Luiz Carlos Vaz
CAL MAX

Sergio Vaz

Max nasceu pobre,
Na verdade
Nasceu Maximiliano
Da Silva Nobre.

Curtido na pedra
Criou-se vidraça.

Como o pai
Também era pintor,
Mas nada de Picasso,
Van Gogh ou Portinari.
Pintava parede, mansão,
Muro e pé de árvore.

Não tinha sonhos,
Mas se sonhasse
Seriam pretos
Seriam brancos
Cinzas de fato.

Morava em bairro comunista
Os vizinhos tinham em comum
A mesma miséria.

As mãos grossas
Nunca fizeram carinho,
Pra ele? Frescura.

No enterro
Depois que caiu do andaime,
Pouca gente
Pouco choro,
Nenhuma madame.

Lembranças?
Só a última pá de cal.
Jaz.
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Do livro "Colecionador de pedras", Global Editora
.

25 de maio de 2015

Inferno



O Inferno de Dante, óleo de Sandro Botticelli
“Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivada na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem. Vocês não ouvem as gravações feitas “com autorização da Justiça”? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo.”
(Marcola - líder do PCC - entrevista concedida ao jornal O Globo, em março de 2.014)

Inferno

Helena Ortiz

Pois aí está. O pessoal da Lagoa, que há alguns anos pendurava faixas com "Basta", não se organizou suficientemente. Não acreditou suficientemente que estava alimentando o monstro. E agora está preocupado com a fome insaciável e cruel dos ladrões de bicicletas que os esfaqueiam e matam.

É horrível? É. 

Mas é horrível que aconteça em qualquer lugar.

O Rio de Janeiro não é mais a cidade partida. É uma cidade estilhaçada. Agora não importa se são ricos ou pobres, a violência apoderou-se de todos os espaços.  

Isso, já sabemos, é fruto da desigualdade social. Essa desigualdade social passa por falta de moradia, educação, oportunidade e respeito. Também por conta da indiferença com que os ricos olham os pobres em tragédias que parecem ficcionais e que aparecem, de relance, em suas grandes telas de tv. Agora (que susto!) esses bandidos mirins invadiram o território dos ricos. Daí a perplexidade. Os bandidos mirins já não são só figurantes na tv. Eles são protagonistas da vida alheia. Da morte alheia.

O que eu digo é tão antigo, tão repetido que às vezes também me parece banal.

Há poucas chances de diminuir essa discriminação que nos acompanha desde a escravidão e que não terminou com a abolição. Somos um país misturado governado por brancos cujo braço armado, a polícia, tem especial preferência por negros (para bater, prender e matar) sem que sequer reconheçam  a própria cor e a sua condição de discriminados: por serem pobres, por serem negros e por serem polícia.

Sim, a culpa não é toda da polícia. Não há uma política de Estado que se dedique a esse grande problema social. Não há ninguém que queira resolver nada. Todos estão confortáveis em seus lugares reservados.

E repetindo Marcola: Como escreveu o divino Dante: 

"Lasciate ogne speranza voi che entrate."  

Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno.
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Helena Ortiz é escritora, poeta e edita os blogs: