10 de outubro de 2026

Um dia para não esquecer! ou Que país é esse?

 

Foto: Luiz Carlos Vaz


 

Luiz Carlos Vaz (*)

 

Nas favelas, no senado

Sujeira pra todo lado

Ninguém respeita a constituição

Mas todos acreditam no futuro da nação

Renato Russo (Renato Manfredini Júnior) em 1987

 

 

       Eu não lembro bem dos detalhes, logo eu, hein? Mas recordo claramente que eram umas oito horas da manhã, fui tomar banho, e dois minutos depois a água ficou em temperatura ambiente. Por “ambiente”, fique claro, o ambiente da rua, numa manhã primaveril, fria... A resistência não resistiu!

       Olha, quem inventou o “banheiro social” deveria ganhar algo como um Nobel de Invenções Inúteis que, quando são úteis, tornam-se fundamentais. Há uma semana já havíamos ficado sem energia elétrica por 54 horas, quando passamos a usar muito a velha chaleira para aquecer a água para o mate, e se podia filar o banho na casa do cunhado, aqui perto... Mas, convenhamos, a possibilidade de visitar alguém num domingo de manhã, antes das 9 horas, enrolado em uma toalha, seria até uma anedota. Por isso, um Nobel, rápido, ao criador de um segundo banheiro nas casas!

      Perfumado como para ir casar, conferi meu documento de cidadão, e fui, a pezito no más, até minha secção eleitoral. Não havia bicha, só uma senhora à porta, já por ser chamada para cumprir sua obrigação cívica. Mas, nas outras “mesas” que funcionavam no mesmo prédio daquela escola, as filas eram enormes, pois eram seis votos, para cinco funções diferentes. Haja concatenação de memória! Por isso a cola era fundamental e aconselhada pela própria Justiça Eleitoral. A imagem na tela das urnas era bem clara, e um som guiava teus passos, nesse caso, teus dedos e, para os deficientes auditivos, figuras em LIBRAS mostravam as etapas do voto ao eleitor.

         Pililililim, pililililim e...

         Próximo da fila!

        Eram centenas de pessoas indo e voltando, chegando e saindo, deixando para mais tarde, conversando sozinhas, em silêncio, falando com o olhar, segurando a sua “cola” na mão e, por vezes, já usando como protetor solar da luz do sol que, aos poucos, aparecia meio sem vontade. Tudo isso enquanto um Caramelo, literalmente, também sacudia a sua cola. A verdadeira.

        Bati uns retratos, bem de longe, cuidando para não constranger ninguém, registrando em imagens aquela função toda. O Brasil estava começando a eleger, entre outros mandatos políticos, o seu próximo Presidente. Para essa criançada de hoje, as do século XXI, parece uma coisa natural fazer isso de quatro em quatro anos. Mas, aos 12 anos, eu soube que meus pais, meus tios, meus vizinhos, meus professores, meus conterrâneos, os gaúchos, enfim, todos os brasileiros, não poderiam mais fazer isso. E era difícil para um menino que recém entrara para o Ginásio entender o motivo... O Ginásio é equivalente à 6ª série do Ensino Fundamental de hoje. Por isso, se um professor estiver lendo esse texto, procure imaginar seus alunos de 6ª série - de hoje - sem face, sem tiquetoque, sem instagram, sem uátis, sem emeil... ah! e nem o Orkut, certo?

        Quando votei pela primeira vez para Presidente eu já estava com quase 40 anos... Hoje, a meninada com 16 anos já pode escolher seu vereador, seu deputado estadual e federal, seus senadores, o prefeito, o governador e... o Presidente da República! E, embora o voto seja obrigatório até antes de completar 70 anos, muitos não comparecem às urnas, mas depois precisam pagar “uma pesadíssima multa” de pouco mais de três pila. Exatamente R$ 3,50 - três reais e cinquenta centavos pelo não comparecimento às urnas. Ufa, que despesa! Muitos, para não terem que dar explicações da sua ausência, comparecem e votam “em branco” ou anulam o voto, ou seja, abrem mão de exercer o maior dever cívico de sua condição de cidadão de um país.

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        Já era quase noite, eu ainda devia estar cheiroso, quando os resultados do chamado Primeiro Turno foram proclamados. Meu deputado Estadual comemorava sua reeleição e meu candidato a Presidente fora para o segundo turno. Só.

         A resistência não resistiu!

       A vitória das redes, chamadas sociais, estava ali, na tela da tevê. Então eu faço a mesma pergunta que Renato Manfredini Júnior nos fez em 1987:

         Que país é esse?

 

(*) Luiz Carlos Vaz é Jornalista, Fotógrafo, Escritor e Editor deste Blog

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