15 de março de 2023

Vinho de “Garafon” x Embrapa Viníferas

 

Seria um vinho de Garafon?

Vinho de “Garafon” x Embrapa Viníferas

Adelli Sell (**)

 

"GARAFON" (*) de vinho não é coisa tão antiga. "Sangue de boi" (que nome mais ridículo) era produzido por uma das cooperativas, lembram? O brasileiro comum desconhecia o que era vinho "fino" até pouco. Nos tempos de estudantes a gente bebia isso, depois já nos 80 aportam aqui aquelas garrafas bonitinhas do Gewurztraminer alemão: LIebfraumilch.

 

Eta, e a gente achava que tinha descoberto uma mina de ouro. Não se trata de esnobação. Era o que havia. Não se tinha tradição de beber vinho e espumantes. Isso, anotem, é coisa moderna, recente.

 

Vinhos finos em garrafas com rótulos feitos por designer é coisa bem recente. Enólogos famosos das famílias de "gringo" não conheço nem meia dúzia. Sei de muitos argentinos que dão o tom e as notas dos espumantes e vinhos finos na Serra. Faça-se justiça uma das poucas pessoas que postou, falou e está debatendo o tema é uma enóloga gaúcha. Só falta persegui-la agora.

 

Vi vários vídeos de vinícolas locais. Li muita matéria publicitária e correlatos.

Uma sucessora de uma das "Família" fala em "meritocracia"! Aí “me caíram os butiás do bolso" Mentira! Sim, no caso do vinho gaúcho é MENTIRA.

 

Até os anos 70 e poucos aqui só se conhecia vinho tinto, branco e rosé. Desafio alguém a achar um rótulo com a designação de cepas. O vinho era feito, basicamente, com uvas de mesa.

 

Na crise pós-guerra inventaram de produzir destilados; e não foi a nossa grapa (ou graspa) de raiz, melhorada dos ancestrais, como vi em Santa Tereza. Não, produziram vodca, destilados em geral e conhaques. Um ficou famoso, mas era de quinta categoria. Era desta vinícola de uma das “Família”.

 

Quando apareceram os vinhos finos?

 

Quando você ouviu falar em cepas como cabernet sauvignon e merlot? Não faz tanto assim. Imagina marselan e tannat!

 

O que nossas vinícolas vendem em sites, páginas de mídias sociais e nos vídeos é como se tudo tivesse sido obra dos "nonos" e das "nonas", "gringo", do trabalho duro (que ninguém nega). Ouvi uma referência apenas a uma parceria com uma Universidade. Nenhuma vez citam a Embrapa Uva e Vinhos, com sede em Bento Gonçalves.

 

Como foi a história de 1875 (chegada dos “gringo”) a 1937, quando foi criado o laboratório Central de Enologia, com sede no Rio de Janeiro e três Estações de Enologia com sede no Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais? Tudo era artesanal, sem qualquer técnica avançada como havia fora do país.

 

Em 30 de maio de 1942, Getúlio mandou aplicar a verba de 60 contos de réis, em forma de adiantamento, na aquisição de estacas, porta-enxertos e coleções de videiras de diferentes espécies e variedades, destinadas à organização inicial dos vinhedos de estudo e dos viveiros de multiplicação. O resto todos sabem, só querendo ver, mas os “gringo” escondem.

 

Vocês das vinícolas - que contratam "gato" na safra - nunca gastaram em pesquisa até os anos 2000. Nada. Meritocracia? Recursos públicos ajudaram vocês a melhorar e até a ficar ricos.

 

Vocês são mal agradecidos.

 

Quem descobriu o "terroir" da campanha não foram os "gringos', foram agrônomos formados em Universidades PÚBLICAS, foi a EMBRAPA, sem um centavo de vocês. E vocês apagaram toda esta História. Vocês não existiriam sem Getúlio Vargas, sem governos que colocaram recursos e construíram universidades e centros tecnológicos públicos. Vocês ganharam um Instituto Federal do governo do Lula, a quem vocês deram apenas 25% dos votos.

 

Vocês são mal agradecidos.

 

Vocês são useiros e vezeiros de apareceram como sonegadores e até pouco tempo muitos eram acusados de "batizar" o vinho. Nem todos. Por sinal, fui acionado quando Secretário em Porto Alegre a fiscalizar a origem dos vinhos.

Quem formou os melhores profissionais químicos que começaram a atuar na região são oriundos de faculdades públicas também.

 

A Embrapa foi erguida e é referência mundial com nosso dinheiro, dos impostos. E isto ajudou vocês.

 

No que pesquisei vocês, repito, nunca citam a Embrapa. Quando um patriarca de uma das "Família" diz que tem um sócio que nada aplica e faz (o governo), pelo vinho, ele MENTE. Vocês estariam vendendo vinho feito com uva de mesa e vendendo em "garafon" nas bodegas e casas de pasto, não nos templos do vinho de hoje e nos bons restaurantes da região e do país afora. No máximo chegariam a envasar em garrafas. Vocês não tem vergonha na cara. Vocês me envergonham.

 

Desde muito tempo, é verdade, vocês fornecem o VINHO CANÔNICO, o qual tem que ter licença da Cúria. E agora? O que vocês vão falar para a CNBB, para os padres, já que 70% de vocês são católicos?

 

Eu sei que nem todos os "gringo" são iguais. Nem todos os "terceirizados" são iguais.

 

Num domingo na Rota das Cantinas Históricas me deparei com o dono sim, um dos donos de uma vinícola, lendo um clássico da sociologia Manuel Castells. Confesso que aquilo me impactou e tivemos uma conversa genial. Pois pelo que sei tem alguns de vocês que ainda leem Andrew Carnegie. Sim, são vocês a fonte do atraso. Desculpa, alguns devem estar lendo Pai Rico, Pai Pobre.

 

Vocês deveriam ir ao Santuário de Santo Antônio – vosso padroeiro - pelo próximo ano, rezar de joelho, pedir perdão, pedir um novo pacto civilizatório. Vocês não são bons em fazer promessas?

 

Digam a Santo Antônio que, no próximo vídeo, vocês juram que vão mostrar os trabalhadores de chão de fábrica, os deixar falar livremente, vão apresentar os colhedores e carregadores de uvas na safra.

 

Quando vocês contratarem novos trabalhadores, façam um típico café da manhã, para recepcioná-los. No primeiro domingo da safra, façam uma mesa como seus antepassados faziam, com sopa de agnolini e carne lessa. Mostrem o vosso lado “raiz ”, originário e solidário. Prometam contratar trabalhadores temporários ou por uma empresa que respeita os direitos trabalhistas.

 

Mas se foram baianos e nordestinos e se eles não gostarem desta comida, pelos hábitos, veja se não gostariam de um almoço especial com carne seca e farinha, parte da cultura gastronômica deles. Aprendam a respeitar os "lá de cima" que adoram outras comidas. Ah, vocês não poderiam fazer uma rodada de espumantes para seus trabalhadores conhecerem o fruto de parte do trabalho deles? Prometam isso a Santo Antônio e cumpram. Não são vocês de dizem que “Deus não mata, mas castiga”?

 

Ah, não esqueçam que tem a “empresa do lixo” como vocês falam aí, que tem ¼ de seus operários, garis, sim “garis” é o nome, que são imigrantes, haitianos, negros.

 

Não teve uma guria que fez uma “vaquinha” para trazer a família de uma haitiana? Como ela pode arrumar quase 40 mil e vocês fazem o que fizeram com os baianos?

 

A Serra Gaúcha é fruto de um processo de imigração. Todos nesta Terra são imigrantes, tirando os povos originários. Lembro que Caxias do Sul chegou a se chamar Campo dos Bugres.

 

Lembram que seus antepassados vieram do outro lado do mundo, atravessando o Atlântico em navios, não em aviões que vocês tomam para visitar Bordeaux.

 

Lembram que crianças, antepassadas de suas famílias foram jogadas ao mar, por terem morrido a bordo. Lembram que uma menina italiana foi roubada dos pais no Porto de Santos.

 

Que teve caminhão que rolou nas ribanceiras da região e morreu gente, antepassado de vocês.

 

Não pensem que as pessoas vão se contentar em ver o vereador caxiense ser cassado.

 

Queremos ver o pagamento por danos morais coletivos, e que este dinheiro seja investido em PESSOAS.

 

Queremos que os recursos do SESI, SESC, SENAC sejam gastos, como era no passado, com as pessoas para que possam ingressar com dignidade no mundo do trabalho regional.

 

Vossas cartas não bastam. Algumas são emendas piores do que soneto de “tiazinha”.

 

Vocês querem mudar? Vocês podem mudar. Mas é preciso ter humildade.

 

Não pensem que isto vai passar como uma “gripezinha”. Não, porque vocês foram inoculados com algo que vos tornou insensíveis, algo que tem que ser extirpado com fórceps.

 

(**) ADELI SELL é professor, escritor e bacharel em Direito.




(*) "Garafon" escrito assim, é a real pronúncia dos "gringo". Por isso, muitos sofreram bullying. Estes nossos artigos não são uma provocação, nem um desdém, pelo contrário: a gente só quer ajudar.


22 de janeiro de 2023

Pinocchio, Mentira e Verdade Ou Eu minto muito, mas sempre mostro as provas.

Luiz Carlos Vaz (*)


Pinóquio por Enrico Mazzanti - Florença – 1883


Que nome lhe darei? - disse para si mesmo –

Quero chamar-lhe Pinóquio. O nome dar-lhe-á sorte.

Conheci uma família inteira de Pinóquios.

Pinóquio o pai, Pinóquia a mãe e Pinóquios os meninos e todos estavam bem.

O mais rico deles pedia esmola.


Geppetto



As chamadas - Verdade e Mentira, eu creio que nasceram juntas, são gêmeas bivitelinas; só não sabemos qual delas terá visto a luz do mundo real primeiro. Imaginem comigo a primeira a nascer dizendo à outra:

“Olha, aqui fora há uma luz muito forte!

Então a segunda teria respondido perguntando:

Mas...isso é verdade ou mentira?”


Já uma lenda do século XIX, conta que as duas, a Verdade e a Mentira, foram tomar banho juntas. A Mentira diz à Verdade: “Hoje está um dia maravilhoso!” A Verdade olha para os céus e suspira “Sim!”, pois o dia estava realmente lindo. Elas caminham juntas durante um tempo e chegam finalmente a um poço. A Mentira diz à Verdade: “A água esta muito boa, vamos tomar um banho juntas!” A verdade, mais uma vez desconfiada, testa a água e percebe realmente que ela está muito boa.

Elas se despem e começaram a tomar banho. De repente, a Mentira sai da água rapidamente, veste as roupas da Verdade e foge. A Verdade, furiosa, sai do poço e corre para encontrar a Mentira e pegar suas roupas de volta, mas não consegue alcançá-la. O mundo então, vendo a Verdade nua, desvia o olhar, com desprezo e raiva. A pobre Verdade volta ao poço e desaparece para sempre, escondendo-se nele, com sua vergonha.

Desde então, a Mentira viaja ao redor do mundo, vestida como a Verdade, satisfazendo as necessidades da sociedade, porque, em todo caso, o Mundo não nutre nenhum desejo de encontrar a Verdade nua...

Mas aí e uma é uma outra história...


“A Verdade saindo nua do poço”, Jean-Léon Gérôme, 1896.


 ...e eu quero falar é de Pinóquio, grafado assim em português. Pinóquio – em italiano Pinocchio, personagem que ganhou o mundo a partir da primeira edição, em 1883, do romance As aventuras de Pinocchio, escrito por Carlo Collodi; desde então a história recebeu inúmeras versões, em praticamente todos os idiomas, e em todos os países. (Creio que isso seja verdade...)

A educação familiar, religiosa e escolar, sempre prezou por cobrar das crianças em formação atitudes verdadeiras, gestos verdadeiros e... a falar sempre a verdade, duela a quien duela, como disse um ex-presidente, numa tentativa de responder, em espanhol, a uma pergunta de um repórter argentino.

Mas... o que as crianças sempre perceberam nos adultos? Muitas mentiras e poucas verdades, é claro. Tá bem, não me falem das exceções, plis! (agora sou eu me expressando em inglês, talkey?)

Somos criados no meio da Mentira e da Verdade. E não há um mais ou menos, tipo um Centrão dos Fatos, para abrigar uma terceira via entre elas. É verdade ou é mentira. “Não sei, só sei que foi assim!” foram as palavras que Ariano Suassuna colocou na boca de Chicó, no Auto da Compadecida. É tipo uma verdade, mas que não se sabe explicar como foi, onde foi, com quem foi, quando foi... como na máxima criada pela antiga imprensa norte-americana, a “lei” dos cinco Ws.

Aldyr Garcia Schlee, nosso maior escritor fronteiriço, gostava de dizer em palestras para estudantes, para espanto e chiliques da plateia adulta, “Todo escritor é um grande mentiroso! Só que ele, ao mentir, inventar, criar, imaginar, recebe o nome acadêmico e bonito de ficcionista!”

Pinóquio, a cada vez que mentia, lhe crescia o nariz. Aquilo era como uma maldição, um sinal de que o que estava dizendo era mentira. Ah!, e se a moda pegasse hoje? G-zus!

Nessa vaibe de mentira e verdade, comecei há algum tempo, uma coleção de “Pinóquios”. Comprei alguns na minha primeira viagem a Roma (e isso é verdade!). Depois fui ganhando outros e outros... Esta semana mesmo, recebi um do Gerson, meu primo do coração. E esse é um Pinóquio que tem história e afetos. Pertenceu aos filhos dele, quando eram pequenos... filhos que, certamente, ao contrário do brinquedo que ganharam, preferiam seguir o caminho da verdade, sem fazer relação alguma com o pequeno boneco de madeira.

Tenho com a verdade e a mentira uma convivência cordial, sem culpa. Quando escrevo, já disse disso isso num livro meu, publicado em 2021, por Edições Ardotempo, A História de Abel, que minto um pouco. Mas ressalto na minha frase lapidar: Eu minto muito, mas sempre mostro as provas.

Talvez a minha coleção de Pinocchios e Pinóquios, que fica sempre à minha vista, aqui onde escrevo, seja um sinal, um aviso, uma premonição, um tipo de alerta para mim.

Mas, daqui de onde escrevo, eu também vislumbro a minha frase preferida, desenhada numa caneca, que ganhei há tempos da amiga Eliana. Talvez seja o antídoto que preciso quando fico, como diz a Isolete, “enfeitando” muito as histórias que escrevo e conto aos amigos, seja aqui em casa, no café, no bar e pela vida afora:

"La vida no es la que uno vivió, sino la que uno recuerda, y cómo la recuerda para contarla."

Gabriel Garcia Márquez


Gracias, Gabo! Não estou sozinho nessa labuta de mentir bonito, escrevendo ficção, que é o nome de domingo da mentira.

O Pinóquio dos guris do Gerson agora está na minha coleção


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(*) Luiz Carlos Vaz é Fotógrafo, Jornalista, Professor e Escritor. Fez seus estudos de Pós Graduação em Memória Social e Patrimônio Cultural na UFPel, e pesquisa Arquivos Fotográficos Familiares. E, dizem, é um mentiroso de plantão.


25 de novembro de 2022

“Não quero para meu genro, mas quero jogando no meu time”

 

Fernando Freitas, Arquivo Pelotas 13 horas

“Não quero para meu genro, mas quero jogando no meu time” (*)

Luiz Carlos Vaz (**)

Luís Fernando Lessa Freitas era um excelente frasista. Mas não um frasista qualquer. Era um frasista bem humorado. Não quero com isso, claro, reduzir o Freitas a essa máxima. E para tanto conto com a inteligência de vocês. Não vou nem citar que ele era Jornalista formado pela UCPel, que dedicou sua vida à política e a cultura; que foi quem, em duas oportunidades, incentivou a criação - primeiro nos anos 60, e a recriação da nossa Feira do Livro, desta vez em 1977, e que dedicou toda a sua vida à outras atividades culturais da cidade onde nasceu e viveu... Não estou escrevendo a biografia do “velho Freitas”. Estou lembrando suas tiradas, quando, com o cachimbo ou um charuto no canto da boca, soltava algo assim: “Meu velho, ainda vão inventar uma vacina contra a AIDS, mas contra a burrice, não!”

Filho de Bento Freitas, era, claro, um Xavante de todos os costados, e dizia: Só torço por três times, e todos com começam com a letra b: Brasil, Botafogo e Barcelona. E, sobre futebol, possuía um currículo invejável. Tinha, por exemplo, assistido o “dos uno” no Maracanã...

De quatro em quatro anos, como a maioria dos brasileiros, escalava seus jogadores para a Seleção! E, claro, não deixava de fora nenhuma vedete, nenhum bobalhão, ninguém que, fazendo gols, garantisse mais uma conquista para o Brasil. Então fico imaginando o velho Freitas escalando para esta Copa do Qatar jogadores como o analfabeto político e sonegador de impostos - aqui e lá fora, Neymar, e repetindo uma de suas frases preferidas sobre vááários jogadores durante anos a fio: “Não quero para meu genro, mas quero jogando no meu time”.

Bom jogo a todos. Vou torcer pela nossa Seleção, pelo Tite, pelo Brasil! E vou vestir a “Camiseta Canarinho do Schlee”. Phoda-se o Neymar e suas peripécias financeiras, musicais, políticas e sexuais. Eu quero saber é do Richarlison e da conquista de mais um Caneco!

 

Meu livro "A Taça do Mundo é Nossa", sobre uma "Camiseta Canarinho do Schlee"


Ah! E em respeito ao “direito de autoterminação dos povos”, durante o jogo vou beber só chá!

Dá-lhe Brasil sil sil sil

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(*) Frase de Luís Fernando Lessa Freitas, que nos deixou aos 74 anos, em 2001. 
(**) Luiz Carlos Vaz é Jornalista, Fotógrafo, Escritor e Editor deste Blog

14 de novembro de 2022

Sábado

 

Montagem com fotos publicadas em vários perfis das redes sociais


Jorge Santos (*)

    Noite de sábado, não dá prá ficar em casa. Olho a rua pela janela e assisto a chuva que rola mansamente pelo telhado. A mãe já está dormindo. Nos pés, calcei uns tênis de lona, não sei se saio, não sei se fico. Mas a chuva é fina, acho que vai dar prá encarar. Passei no Kanto Kente, ontem, comprei uma calça Gledson de brim delavê e uma camisa Levi´s bem legal. A vendedora Cátia disse que combinam com meu All Star azul-marinho. Já passa da meia-noite, a vinheta da Globo indica que a Sessão Coruja está começando e eu ainda em casa.

Daqui a pouco passa o Cohab Linha 2 da meia noite e trinta e vem cheio. A  turma do bairro não vai se importar com essa chuvinha. Vou passar um perfumezinho, acho que o Denin tá bom. Tem Água da Fonte no Círculo Operário Pelotense e o San Remo toca no Planalto, dúvida cruel. Vou descer do ônibus na Deodoro esquina com a Voluntários, caminho até o Calçadão da Andrade Neves prá tomar uma caipirinha no Forno. Lá eu resolvo. Acho que vou até Círculo Operário curtir o Água da Fonte. Aquela mina canta muito. O ônibus tá chegando, hora de partir.

Como imaginei a turma da Cohab-Tablada não se assustou com a chuva fina que cai e o ônibus está lotado. Quase todas as janelas fechadas por causa da garoa. O cheiro no interior de um ônibus em um sábado à noite não é o mesmo cheiro de uma sexta-feira à tardinha. As gurias da Tablada, sempre muito cheirosas, capricharam. Os perfumes de sabonete Phebo, de Neutrox, de Almíscar e do Patchouli se misturam no ar.

Opa, já estamos no Centro. O cheiro de filé e cebola na chapa invade o coletivo. É a Bento. Vontade de descer e comer um bauru. Mas, ainda é muito cedo. Se sobrar uma grana, mais tarde, quem sabe? ...Nunca sobra. Desço na esquina da Deodoro com Voluntários e sigo em direção ao calçadão. A noite está feia, a umidade escorre pelas paredes escurecidas pelo cimento penteado, mas aqui no Centro não chove.

 Em frente a um prédio antigo com a parede amarela e um luminoso de neon com defeito encontro com Veridiana. Me contaram que ela já foi Rainha em um clube em Pedro Osório ou Dom Pedrito, não lembro direito. Veio prá Pelotas cursar faculdade e arrumou um trabalho nessa casa. Um tubinho preto muito justo, todo em couro, cobre seu corpo magro até um palmo acima do joelho. Nos pés, ela calça uma bota preta com um salto médio, também de couro, marca Catleia número 36 (fui eu quem vendeu). Lembro-me dela sentada na poltrona da loja com uma minissaia bem curtinha e eu ajudando a calçar a bota com o nariz a um palmo de seu joelho. Uma gabardine clara desabotoada na frente a protege do frio e da chuva fina. Na cabeça, um pequeno chapéu de abas curtas e plumas coloridas.

-E a bota ficou boa?

Ela me olha, sorri, traga um fino cigarro e responde ao mesmo tempo em que solta a fumaça;

-Claro, olha só!

Ela compra roupas caras para seu trabalho e trabalha muito para pagar essas roupas. Sigo meu caminho.

Na esquina da Osório, saindo da Padaria Antônio Maria, ouço a voz do meu amigo Mário:

-Jorginho, prá onde vais?

-Círculo Operário. Vamos nessa?

-Claro que não, vou pro Chove. Lá tem concurso de Break.

Durante a semana o Mário tem o cabelo curto, rente à pele da cabeça. No sábado à noite o cabelo vira black power. Não sei como ele faz isso. O meu amigo coleciona LPs de Black Music, prêmios conquistados nesses concursos de dança.

Entro no Forno, não há ninguém conhecido. A lancheria esta quase vazia. Não vou ficar. Mais adiante, um amigo de infância que não vejo há um longo tempo vem ao meu encontro: o Gerinho.

-Gerinho? Nunca mais te vi.

-Claro, Jorge, fui prá São Paulo ficar famoso.

-Ha,ha. E conseguiste?

-Mais ou menos. Vim ver minha mãe e volto segunda.

-Legal. Prá onde vais a essa hora?

-Num lugar chamado Misturança. Conheces?

-Já ouvi falar. É só dobrar na Quinze, no meio da quadra.

-Vem junto?

-Não! Melhor, não. Boa noite.

O Gerinho tem quase um metro e noventa de altura e ainda caminha sobre um Scarpin com quinze centímetros de altura. Ele dobra a esquina e desaparece. Talvez a gente nem se veja mais.

Logo à frente avisto duas garotas que devem ter entre dezesseis e dezoito anos. Vestem jaquetas e minissaias de couro, calçam coturnos, usam correntes penduradas pelas roupas e tingem os cabelos de roxo, verde e vermelho espichados para cima. Aproveitam o escuro da rua para pichar uma parede recém pintada com os dizeres: ''OS NAJAS''. Conheço essas minas do calçadão. De dia são bem comportadinhas.

Já ouço o som do contrabaixo. Aos poucos, a voz da cantora começa a surgir à minha frente. Pouca gente em frente ao clube. Muita gente lá dentro. Pego o ingresso e entro. As luzes do conjunto e um globo giratório no centro do salão diminuem um pouco a escuridão.

Como diz o Lulu: Todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite.


(*) Jorge Santos é morador da Praia do Laranjal, é meu amigo, e seguido publica “nas redes” uma série de crônicas que tem o título geral de Histórias do Jorgito. Isso vai virar um livro, ah vai!

 

16 de outubro de 2022

A Taça do Mundo é Nossa

 

Fotografia de capa Luiz Carlos Vaz

A TAÇA DO MUNDO É NOSSA


Luiz Carlos Vaz (*)


Como vou lançar na próxima Feira um livro sobre futebol – “A Taça do Mundo é nossa”, vou começar a postar alguma coisa sobre o tema para provar a vocês que eu entendo (ou pretendo aprender com vocês) alguma coisa do assunto.

Tenho aqui nas prateleiras vários livros sobre futebol; títulos como Cuentos de Futbol, do Schlee, Futebol ao Sol e à Sombra, do Galeano ou o maravilhoso livro sobre o Heleno, aliás, sobre o “Dr. Heleno de Freitas”, do Marcos Eduardo Neves, e 99% dos livros publicados por GGM. Às vezes até pesquiso sobre o assunto e quando posso colocar meu guru, o Gabo, nessa coisa toda, fico até entusiasmado.

Pois foi com um ar de Jean-François que consegui localizar um raro texto do GMM, publicado no El Heraldo - um “periódico” de Barranquilla, em 1951, sobre o Heleno, que me ocupou esses últimos dias. Heleno ainda era famoso, mas estava já na fase final da sua carreira e jogava, segundo diz García Márquez, pela segunda vez no “Club Deportivo Popular Junior Fútbol Club”. Aí já me achei em condições de usar o nome completo do grande Jean-François Champollion. Até porque já me sentia o próprio.

Heleno, que nasceu em 1920, já contava com 31 anos; atuara desde 1939 no Botafogo, e em 234 jogos marcou 204 vezes; jogou em outros clubes por poucas temporadas. Foi convocado para a Seleção Brasileira pela primeira vez em 1944, e esteve presente nessa lista de jogadores até 1948; atuou em dezoito jogos e marcando 14 gols com a “camisa branca” da CBD.

Sobre ele, diz Ruy Castro: “Heleno de Freitas deixava um rastro de carnaval por onde passava. Primeiro pelos dribles e gols com a camisa do Botafogo – foi o grande ídolo da Estrela Solitária na era pré-Garrincha. Depois, pelo aroma de lança-perfume que o envolvia, e não apenas nos três dias de folia”... “em campo era o carrasco dos adversários e dos companheiros, que ele humilhava por igual com seu inatingível perfeccionismo; fora dele, era o sedutor irresistível, que circulava pela sociedade carioca dos anos 1940 e arrebatava as mulheres”... “da praia aos estádios, das boates ao hospício, tudo isso em 39 anos de vida”...

Sobre o jogador há inúmeras definições de antigos companheiros a respeito do fato de ser um verdadeiro craque, muito catimbeiro, boêmio inveterado e arrumador de encrenca; mas sobre o Dr. Heleno, Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, casado, pai de um único filho, isso pouco interessa ao futebol.

Na segunda e última passagem por Barranquilla, Garcia Márquez diz que ele “era um homem completamente diferente, dois anos mais velho... já passado pelo torno de uma consciente e multitudinária análise, cujos resultados ainda são desconhecidos, o que impediu a todos que entendem de futebol atrever-se a dizer se Heleno é um gênio ou um palhaço sem o perigo de ter que se retratar no domingo seguinte.” Num outro trecho de seu texto ele diz: “Em nenhum caso uma partida da qual participe Heleno tem a probabilidade de se transformar num logro, porque vaiar, da mesma maneira que aplaudir, é uma forma coletiva de reconhecer publicamente um fato.”

Galeano diz no seu livro Futebol ao sol e a sombra, que em um jogo contra o Flamengo, em 1947, “Heleno estava de costas para o arco. A bola chegou lá de cima. Ele parou-a com o peito e se voltou sem deixá-la cair. Com o corpo arqueado e a bola no peito, enfrentou a situação. Entre o gol e ele, uma multidão. Na área do Flamengo havia mais gente que em todo o Brasil. Se a bola caísse no chão, estava perdido. E então Heleno pôs-se a caminhar, sempre curvado para trás, e com a bola no peito atravessou tranquilamente as linhas inimigas. Ninguém podia tirá-la sem fazer falta, e estavam na zona de perigo. Quando chegou às portas do gol, Heleno endireitou o corpo. A bola deslizou até seus pés. E ele arrematou”.

No conto Verdad y mentira sobre Hugo Del Carril y el gran Heleno de Freitas (na época, 1949, jogando no Vasco da Gama), Schlee, já quase ao final, narra: “En esso apareció Heleno. Heleno de Freitas, de cabello bien peinado repartido a los dos lados. Heleno, el gran Heleno de Freitas, el inigualable, como em um cuadro, em uma fotografia de revista... (não vou contar o final...)

...

A Taça do Mundo é nossa, meu próximo livro, que já tem sessão de autógrafos marcada para o dia 9 de novembro, é uma publicação de Edições Ardotempo, de Alfredo Aquino. Aguardo todos vocês lá... Vamos conversar sobre tudo, menos sobre futebol, coisa que vocês entendem muito mais do que eu. Eu só sou metido a Champollion.

A 48º Feira do Livro de Pelotas acontecerá de 28 de outubro a 15 de novembro nos tradicionais corredores e passeios da Praça Coronel Pedro Osório.

...

Aldyr Garcia Schlee - Verdad y mentira sobre Hugo Del Carril Y El Gran Heleno de Freitas. Cuentos de futbol; Ediciones de Banda Oriental, 1995, pp 88/94

Eduardo Galeano – Futebol ao sol e à sombra. LPM Pocket, 2004

Gabriel Garcia Márquez - Heleno de ponta a ponta. Textos do Caribe vol 2; Record, 1981, p 181

Marcos Eduardo Neves – Nunca houve um homem como Heleno. Editora Zahar, 2012.

...

(*) Luiz Carlos Vaz é Jornalista, Fotógrafo, Escritor e editor deste Blog


26 de agosto de 2022

ORDENHA DE SANGUE

                                                                                           Foto Luiz Carlos Vaz

Ângelo Alfonsin (*)

a vida ordinária

ordena

a ordenha diária

sobrevive-se 

das sobras do viver

das dobras dos braços

a carregar nas costas

ossos mais desossados

que o seu

uma fartura de objetos

abjetos

no cardápio comida

para todos os desgostos

mãos tatuadas de fome

recolhem

restos de morte

para sustentar

destroços de vida

______________________

(*) Ângelo é um poeta. Ponto!


16 de agosto de 2022

Esperança

 

                                                                Fotografia Luiz Carlos Vaz


Maria Clara Michels (*)

A esperança rompeu o invólucro

onde a mantinha prisioneira aquecida, alimentada,

aconchegada ao peito e se foi.

Com uma trouxa às costas como criança pequena em fuga,

levou sonhos e noites estreladas

e se evadiu por um corredor polonês

de guardas constrangidos

que só lhe deram tapinhas na cabeça

e mandaram abraços para a família.

 

Sufocada pelo silêncio,

atormentada pelas palavras não ditas,

pelas frases dúbias,

pelas injunções e subterfúgios, se foi.

Ainda passou a mão no pássaro azul de Bukowski,

que eu mantinha de reserva numa gaiola dourada

e deu um aceno para a menininha de olhos verdes

do décimo quarto andar do Quintana.

 

E então se espalhou pelo mundo,

distribuindo de suas trouxas e mochilas

o brilho no olho

emprego e salário teto e comida na mesa

e amor retribuído.

E eu, eu ainda tenho esperança,

de que, em suas andanças pelo mundo,

me encontre um dia.

E pelas minhas costas 

toque com sua mão suave meu ombro esquerdo

e me envolva num apertado abraço,

num longo e demorado abraço

de amigo que voltou do exílio.

 



Maria Clara Michels,
em noite insone de 16 de agosto de 2022

________________


(*) Maria Clara mora na praia do Laranjal, em Pelotas; é jornalista, cronista e poeta.