30 de julho de 2023

Abra o livro!

Fotografia pelo autor

 

Eduardo Silveira de Menezes (*)

Projete sua sombra à luz da reflexão de outra pessoa; outros tempos, outras concepções sobre o mundo!

Abrir o livro é como abrir uma janela para que o sol possa penetrar na escuridão de onde vivemos.

Nem sempre a luz será agradável aos olhos. A mesma luz que ilumina também pode ferir a visão, pode queimar a pele. Mas, ainda assim, sua razão de ser é iluminar.

A luz não nega as trevas. Pelo contrário. A luz reconhece a escuridão e vive para ela, como uma mãe e uma filha.

Toda luz é vida. Mas ao "dar a luz" uma mãe dá ao seu filho a oportunidade de experimentar algo que nem ela tem a possibilidade de prever. Porque vida é prazer, mas, antes de tudo, é dor. Nascer desacomoda, nos faz chorar, nos vira de cabeça para baixo antes de dizer que estamos preparados. E leva tempo para que possamos dar os primeiros passos sozinhos.

A dor se manifesta já com o ato de iluminar a vida para que outra pessoa possa existir, do seu modo. Então, a mesma luminosidade que resgata da escuridão também "lança luz" na incerteza.

Ler é uma possibilidade de se defrontar com a incerteza da vida. Não só das nossas vidas. Mas de muitas outras vidas. É ter coragem de se "encontrar com a luz", ainda sem saber ao certo como ela irá se manifestar em nós.

Literatura é vida em movimento. É a indignação perante o obscurantismo da nossa falta de conhecimento e o antídoto contra a prepotência do "aprendizado dinâmico". É o reconhecimento de que somos ignorantes perante o que é, de fato, a vida; a que propósito ela serve, se é que serve a propósito algum.

Se não posso buscar o conhecimento na presença da sua fonte original de luz, posso, ao menos, acender uma tocha que ilumina meus passos na direção que eu escolho para ir adiante. Mas também posso parar e retroceder. Posso me demorar em um espaço que se iluminou, pela primeira vez, mas que antes era desconhecido porque não o havia iluminado.

Entre a luz e a escuridão eu posso o mesmo que entre a vida e a morte. Não calculei o início, não posso prever o fim. Mas posso manter o livro aberto, folhear suas páginas, preservar a vida que naquelas folhas se eterniza, à luz do conhecimento. E quem sabe, um dia, iluminar também.

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(*) Doutor em Letras pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel), com pesquisa aplicada às teorias do jornalismo. Mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), com ênfase em Economia Política da Comunicação. Leitor compulsivo, hoje mantém o canal do YouTube Sujeito Literário.

28 de julho de 2023

Quando o Avô se tornou um Fusca

Aquarela da autora

 

Flávia Maria Schlee (*)

 

Pai, mãe e duas gurias em torno de quatro anos. Família pacata com uma casa que tinha um pátio e, nele, apenas um coqueiro. Seus frutos eram coquinhos cabeçudos, saborosos e fáceis de carregar. Eles despertavam apetites não só de comer, mas também de posse.

Um dia, apenas uma das gurias conseguiu apanhar uma quantidade bem grande de coquinhos cabeçudos. Dona Inveja apareceu, então, com um punhado de terra. Um punhado que nada teria de estranho se não tivesse sido jogado no rosto da pequena conquistadora.

            Até aí, o que teria sido apenas uma desavença comum à infância, mudou um destino. A pedra pousou dentro do ouvido da pequena que, de conquistadora, virou vítima! O Vô, que vivia sossegado em suas viagens de poltrona, foi convocado a prestar socorro e decidiu prontamente os procedimentos. O Ford 57 seria a peça chave da operação “pedra no ouvido” junto com muitos chicletes e um travesseiro. A menina, agora elevada ao centro das atenções, ouviu também que o pai ia guiar o auto pela estrada velha que ligava a pequena São Lourenço a grande Pelotas.  Até aí, nada parecia especial para a guria. A poeirada e os infinitos buracos ela já conhecia. Tudo bem com a poeira e os buracos, ela ia fazer a viagem olhando a vista.

Porém esse não era o socorro planejado. Ela e sua pedra no ouvido, deveriam fazer o percurso de auto (automóvel), pelos piores buracos. Quando soube que iria deitada no colo do seu vô, com seu travesseiro de penas e mascando chicletes desejou sinceramente que a pedra, tão bem alojada em seu ouvido, jamais quisesse sair de seu pouso. Nunca havia sentido tamanha segurança de um pai guiando e um vô cuidando!

Ainda que não possamos calcular o tempo preciso, em um determinado momento a guria teve que abandonar a plenitude de ser tão especialmente tratada e reconhecida. A pedra saiu em obediência aos trancos e barrancos do Ford 57 na velha estrada. Um cascalho se juntou a outros e o grande feito tomou seu tamanho diante da própria vida costumeira. Só a guria ficou com o sentimento da lembrança!

Assim, a menina vitimada pela inveja e salva pelo vô, confirmara o grande orgulho que sentia por ele e suas incríveis soluções. A vida continuava sem grandes malabarismos e sem a pedra que fora tão preciosa por tão pouco tempo, segundo os “espectadores sempre julgando de fora”. Eis que um belo dia, o Ford 57 foi trocado por um Fusca e, talvez por ironia, a tal troca aconteceu justo com a morte do Vô.

Diziam para ela que agora seu Vô se transformara em uma estrela. Mas, para ela, essa imagem de um avô como estrelinha no céu era uma bobagem! Como assim apenas uma estrelinha (?) martelava a menina. De tanto martelar um dia ela ouviu uma voz de pedra preciosa. Como um brilhante fragmento ela lhe segredou que com o Fusca não haveria jamais espaço suficiente para a grandeza de seu Vô e muito menos para ela se espichar no seu colo. Sim, era bem verdade! Então a menina teve que aceitar a troca e decifrou o enigma dos tamanhos e seus espaços. Talvez com o Ford 57 houvesse ainda uma obediência de tamanho em que cabiam avô e neta. Mas com o Fusca isso já não teria cabimento! Em um Fusca, meu vô não vai caber comigo!

Com espanto e dor, a menina compreendeu naquele momento que, de fato, agora ela deveria se preocupar muito e cada vez mais com tudo aquilo que vivesse de tamanhos. O que fazer, se ela ouvia seu vô pedir socorro para não ficar apenas como mais uma “pequena” estrela no céu (?). Foi assim que, por artifícios que seu vô havia lhe ensinado, transformou-o em um Fusca!  Em meu vô Fusca, murmurava a guria, qualquer tamanho poderia entrar, qualquer estrada seria a “nossa” e ele ainda saberia tudo que fosse “de ouvido”. Tal era a garantia de um Vô Fusca para mim. Ele sempre soube que meu coqueiro era um butiazeiro e com ele aprendi também a praguejar, com doçura, que meus ouvidos não eram ser pinico e que havia pedras que fechavam para sempre os ouvidos dos cabeças duras e invejosos e que água mole em pedra dura tanto bate até que fura e etc.

Porém, eu que só agora posso falar, não podia imaginar que um Fusca pudesse sair de linha, que o lugar de quem morre estaria na memória e que a imortalidade só pode se alojar em seres vivos que são capazes de olhar para o céu e se comunicar. Eu juro por todos os avôs e avós, se deste modo me permitirem, que os sonhos estão sempre em aberto.

Os Fuscas eram sim estrelas!

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(*) Flávia Maria Schlee nasceu em Pelotas, morou quando criança em São Lourenço do Sul, e reside atualmente no Rio de Janeiro. É graduada em História pela PUC/RJ, fez Mestrado em História pela Universidade Federal Fluminense e Doutorado em Letras pela PUC/RJ. É professora do Departamento de História da PUC/RJ. Tem experiência na área de História, com ênfase em História Antiga e Medieval, atuando nos temas de Literatura, Literatura Antiga e Medieval, História, ensino de História, Heródoto, Homero e Tucídedes.

23 de julho de 2023

A Nenhuma chamarás Aldebarã

 

Constelação de Touro


Rubem Braga

Eu vinha de não sei que tristes sonhos, nefastos pesadelos. Despertei, ansiado, no meio da noite, e olhando a escura parede senti que as imagens torvas que me povoavam os olhos ainda tontos ali vagamente se moviam. Voltei-me, então, sobre o meu flanco direito; a janela estava aberta para a noite. Era uma noite sem lua, que ciciava em árvores e murmurava em águas humildes; e uma grande estrela brilhava.

Haveria outras, esparsas e pequenas, mas aquela era tão grande e cintilava com uma estranha palpitação; era tão distante, mas brilhava tão perto e tão para mim como se fosse uma lanterna que mão amiga houvesse pendurado em minha janela para me dar alento no fundo da treva. Eu vagara tanto pelo mundo que, ao despertar, não sabia em que leito, casa, país e tempo; e mesmo tinha de recompor minha ideia para lembrar se era feliz ou infeliz. Apenas senti que estava agora voltado para o norte, e do fundo de meu coração saudei a estrela com a palavra que me veio aos lábios: Aldebarã!




Lera essa palavra em velhos, cansados livros que falam de astros e mistérios do céu; mas somente agora percebia que era uma palavra mística, feita de muitas outras, querendo dizer, em antigas secretas línguas: a Nova Esperança, a Alegria Amiga, o Esquecimento das Mágoas, a Alegria da Noite.

Aldebarã, Aldebarã! – disse eu, com estranho ardor; e foi como se a sua palpitação se fizesse mais fremente e pura. Então uma voz suave me disse, e era como se a minha melancólica mãe ou, ainda mais distante, a minha irmã e madrinha me passasse a mão pelos cabelos. “Descansa, dorme em paz, Aldebarã é tua amiga; e como soubeste dizer seu nome ela é para sempre tua amiga; dorme em paz, homem da noite solitária e cruel e dos fatigados, tristes pesadelos; dorme. E se amanhã, na tua inquieta fantasia, quiseres dar esse nome a lago que ames, podes dá-lo sem remorso à égua fidalga que no galope deixa que o luar lhe beije as negras crinas, ou à mais bela flor no pélago marinho; e até podes chamar Aldebarã a uma nuvem que se doira no momento em que o céu, para o ocidente, já toma a cor da triste violeta; mas promete que nunca darás esse nome, nunca, a nenhuma filha dos homens, por mais ansioso te faça a sua beleza peregrina”.

Eu disse apenas, humilde: “Prometo”. E então pela primeira vez em muitos e muitos anos de longas noites, eu pude adormecer sorrindo, porque meu coração era puro como o de um menino.



20 de abril de 2023

LUIZ CARLOS VAZ TRAZ SUAS MEMÓRIAS

 



ADELI SELL

Luiz Carlos Vaz mora em Pelotas. Nasceu em Hulha Negra, passou sua infância e adolescência em Bagé. Jornalista, fotógrafo e especialista em temas de patrimônio histórico. O autor qualifica seu livro como "Memórias";  são crônicas que perpassam sua vida até sair de Bagé. 

É incrível como temos poucos cronistas memorialistas como Vaz. Imaginem se Porto Alegre não tivesse tido Coruja, Achyles Porto Alegre, Paulo de Gouvêa, Theodemiro Tostes? Quanta lacuna?

Vaz cobre uma parte disso, a começar pela nossa  fronteira. Ele se identifica com este traço fronteiriço, desde a crônica que dá título ao livro A História de Abel, como nas outras quando fala de algo simples como o jogo com Pelé, no Estádio em Bagé,  a ida de Roberto Carlos, pois parece algo simples, mas a cada linha fica marcado algo que havia e pode não haver mais, como é a  bica da menina de rua, bebendo água dela,  que ele fotografa, assim fica o registro, no papel copiado e na memória. 

O bom cronista é aquele que explora um acontecimento simples em algo a pensar, a lembrar, a refletir como o fato de se cortar com a navalha do pai. Vaz vai passando o que viveu e o que não viveu, mas está na recordação, pois a mãe recordou a ele isto ou aquilo, como os dois primeiros anos de vida em Hulha Negra.

Por isso, cita o grande Gabriel Garcia Marques: "A vida não é a que a gente viveu e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la". Isto mesmo. Talvez a síntese desta visão seja "A caixa de sapatos da vovó", pois os guardados ali podem estar esmaecidos, nas fotos tiradas há tempos, mas ficam ali, pois nos dias de vida digital somem assim que o HD encher. 

O livro do Vaz não é para resumir cada crônica, é para ser lido, passado adiante, servindo de incentivo a novos escritores. Para o Vaz eu diria que o próximo tem que ser algo sobre nossa querida Pelotas, pois esta em si já é uma crônica.

ADELI SELL é professor, escritor e bacharel em Direito.

3 de abril de 2023

Rumo ao Meio Milhão!

 


Luiz Carlos Vaz (*)

Neste ano de 2023, no dia 28 de novembro, nosso Blog vai comemorar 14 anos. O início se deu pela necessidade de criar “um grupo” de antigos alunos do Estadual que, desde o ano de 2007, buscavam promover um encontro da Velha Guarda. Nossa primeira incursão nas redes sociais se deu através do Orkut, num grupo criado por jovens alunos da nossa Escola, com um nome que ficou comum naquela rede, de “Eu passei pelo...” e se colocava o nome do colégio. O Eu passei pelo Carlos Kluwe, no nosso caso, ficou mais famoso após a colega Claudete criar um tópico na Comunidade com o título “Alguém da Velha guarda?”

Pronto, os vovôs e as vovós, ainda pouco acostumados com as “novas tecnologias”, socorreram-se de filhos, sobrinhos e netos para aderir ao Blog, que logo logo já possuía “mais de mil acessos de dez países!”




Passados alguns anos, surgiram com toda a força, novas redes sociais como o Facebook, e o  Twitter. O Orkut foi adquirido pelo criador do Facebook, que o desativou, ele não queria concorrência. Os Blogs foram perdendo a vez, multiplicaram-se os celulares com acesso à internet, surgiu o whatsapp, com todas as ferramentas possíveis, como grupos, e a maioria dos blogs perdeu a corrida nas “redes”.

Nosso Velha Guarda sentiu o baque, até que o Facebook passou a permitir a publicação de fotografias, vídeos e...  links para outras publicações. Voltamos a ter acessos a partir da postagem dos links no Facebook, onde para ler o conteúdo completos publicado no nosso VG, era preciso acessar o blog através do link.

Hoje me surpreendi com um número “redondo” – 449.000 acessos. Mas isso não é nada ao se constatar que os modernos youtubers, ou os “criadores de conteúdo” (conteúdo? Socorro!), e também aqueles chamados de formadores de opinião, e outras aberrações passageiras, como as notícias falsas, obtém em minutos milhares ou até milhões de acessos.



Vamos em frente, vamos buscar nosso meio milhão de acessos! Devagar e sempre! E com conteúdo!

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(*) Luiz Carlos Vaz é Jornalista, Fotógrafo, Escritor e Editor deste Blog

15 de março de 2023

Vinho de “Garafon” x Embrapa Viníferas

 

Seria um vinho de Garafon?

Vinho de “Garafon” x Embrapa Viníferas

Adelli Sell (**)

 

"GARAFON" (*) de vinho não é coisa tão antiga. "Sangue de boi" (que nome mais ridículo) era produzido por uma das cooperativas, lembram? O brasileiro comum desconhecia o que era vinho "fino" até pouco. Nos tempos de estudantes a gente bebia isso, depois já nos 80 aportam aqui aquelas garrafas bonitinhas do Gewurztraminer alemão: LIebfraumilch.

 

Eta, e a gente achava que tinha descoberto uma mina de ouro. Não se trata de esnobação. Era o que havia. Não se tinha tradição de beber vinho e espumantes. Isso, anotem, é coisa moderna, recente.

 

Vinhos finos em garrafas com rótulos feitos por designer é coisa bem recente. Enólogos famosos das famílias de "gringo" não conheço nem meia dúzia. Sei de muitos argentinos que dão o tom e as notas dos espumantes e vinhos finos na Serra. Faça-se justiça uma das poucas pessoas que postou, falou e está debatendo o tema é uma enóloga gaúcha. Só falta persegui-la agora.

 

Vi vários vídeos de vinícolas locais. Li muita matéria publicitária e correlatos.

Uma sucessora de uma das "Família" fala em "meritocracia"! Aí “me caíram os butiás do bolso" Mentira! Sim, no caso do vinho gaúcho é MENTIRA.

 

Até os anos 70 e poucos aqui só se conhecia vinho tinto, branco e rosé. Desafio alguém a achar um rótulo com a designação de cepas. O vinho era feito, basicamente, com uvas de mesa.

 

Na crise pós-guerra inventaram de produzir destilados; e não foi a nossa grapa (ou graspa) de raiz, melhorada dos ancestrais, como vi em Santa Tereza. Não, produziram vodca, destilados em geral e conhaques. Um ficou famoso, mas era de quinta categoria. Era desta vinícola de uma das “Família”.

 

Quando apareceram os vinhos finos?

 

Quando você ouviu falar em cepas como cabernet sauvignon e merlot? Não faz tanto assim. Imagina marselan e tannat!

 

O que nossas vinícolas vendem em sites, páginas de mídias sociais e nos vídeos é como se tudo tivesse sido obra dos "nonos" e das "nonas", "gringo", do trabalho duro (que ninguém nega). Ouvi uma referência apenas a uma parceria com uma Universidade. Nenhuma vez citam a Embrapa Uva e Vinhos, com sede em Bento Gonçalves.

 

Como foi a história de 1875 (chegada dos “gringo”) a 1937, quando foi criado o laboratório Central de Enologia, com sede no Rio de Janeiro e três Estações de Enologia com sede no Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais? Tudo era artesanal, sem qualquer técnica avançada como havia fora do país.

 

Em 30 de maio de 1942, Getúlio mandou aplicar a verba de 60 contos de réis, em forma de adiantamento, na aquisição de estacas, porta-enxertos e coleções de videiras de diferentes espécies e variedades, destinadas à organização inicial dos vinhedos de estudo e dos viveiros de multiplicação. O resto todos sabem, só querendo ver, mas os “gringo” escondem.

 

Vocês das vinícolas - que contratam "gato" na safra - nunca gastaram em pesquisa até os anos 2000. Nada. Meritocracia? Recursos públicos ajudaram vocês a melhorar e até a ficar ricos.

 

Vocês são mal agradecidos.

 

Quem descobriu o "terroir" da campanha não foram os "gringos', foram agrônomos formados em Universidades PÚBLICAS, foi a EMBRAPA, sem um centavo de vocês. E vocês apagaram toda esta História. Vocês não existiriam sem Getúlio Vargas, sem governos que colocaram recursos e construíram universidades e centros tecnológicos públicos. Vocês ganharam um Instituto Federal do governo do Lula, a quem vocês deram apenas 25% dos votos.

 

Vocês são mal agradecidos.

 

Vocês são useiros e vezeiros de apareceram como sonegadores e até pouco tempo muitos eram acusados de "batizar" o vinho. Nem todos. Por sinal, fui acionado quando Secretário em Porto Alegre a fiscalizar a origem dos vinhos.

Quem formou os melhores profissionais químicos que começaram a atuar na região são oriundos de faculdades públicas também.

 

A Embrapa foi erguida e é referência mundial com nosso dinheiro, dos impostos. E isto ajudou vocês.

 

No que pesquisei vocês, repito, nunca citam a Embrapa. Quando um patriarca de uma das "Família" diz que tem um sócio que nada aplica e faz (o governo), pelo vinho, ele MENTE. Vocês estariam vendendo vinho feito com uva de mesa e vendendo em "garafon" nas bodegas e casas de pasto, não nos templos do vinho de hoje e nos bons restaurantes da região e do país afora. No máximo chegariam a envasar em garrafas. Vocês não tem vergonha na cara. Vocês me envergonham.

 

Desde muito tempo, é verdade, vocês fornecem o VINHO CANÔNICO, o qual tem que ter licença da Cúria. E agora? O que vocês vão falar para a CNBB, para os padres, já que 70% de vocês são católicos?

 

Eu sei que nem todos os "gringo" são iguais. Nem todos os "terceirizados" são iguais.

 

Num domingo na Rota das Cantinas Históricas me deparei com o dono sim, um dos donos de uma vinícola, lendo um clássico da sociologia Manuel Castells. Confesso que aquilo me impactou e tivemos uma conversa genial. Pois pelo que sei tem alguns de vocês que ainda leem Andrew Carnegie. Sim, são vocês a fonte do atraso. Desculpa, alguns devem estar lendo Pai Rico, Pai Pobre.

 

Vocês deveriam ir ao Santuário de Santo Antônio – vosso padroeiro - pelo próximo ano, rezar de joelho, pedir perdão, pedir um novo pacto civilizatório. Vocês não são bons em fazer promessas?

 

Digam a Santo Antônio que, no próximo vídeo, vocês juram que vão mostrar os trabalhadores de chão de fábrica, os deixar falar livremente, vão apresentar os colhedores e carregadores de uvas na safra.

 

Quando vocês contratarem novos trabalhadores, façam um típico café da manhã, para recepcioná-los. No primeiro domingo da safra, façam uma mesa como seus antepassados faziam, com sopa de agnolini e carne lessa. Mostrem o vosso lado “raiz ”, originário e solidário. Prometam contratar trabalhadores temporários ou por uma empresa que respeita os direitos trabalhistas.

 

Mas se foram baianos e nordestinos e se eles não gostarem desta comida, pelos hábitos, veja se não gostariam de um almoço especial com carne seca e farinha, parte da cultura gastronômica deles. Aprendam a respeitar os "lá de cima" que adoram outras comidas. Ah, vocês não poderiam fazer uma rodada de espumantes para seus trabalhadores conhecerem o fruto de parte do trabalho deles? Prometam isso a Santo Antônio e cumpram. Não são vocês de dizem que “Deus não mata, mas castiga”?

 

Ah, não esqueçam que tem a “empresa do lixo” como vocês falam aí, que tem ¼ de seus operários, garis, sim “garis” é o nome, que são imigrantes, haitianos, negros.

 

Não teve uma guria que fez uma “vaquinha” para trazer a família de uma haitiana? Como ela pode arrumar quase 40 mil e vocês fazem o que fizeram com os baianos?

 

A Serra Gaúcha é fruto de um processo de imigração. Todos nesta Terra são imigrantes, tirando os povos originários. Lembro que Caxias do Sul chegou a se chamar Campo dos Bugres.

 

Lembram que seus antepassados vieram do outro lado do mundo, atravessando o Atlântico em navios, não em aviões que vocês tomam para visitar Bordeaux.

 

Lembram que crianças, antepassadas de suas famílias foram jogadas ao mar, por terem morrido a bordo. Lembram que uma menina italiana foi roubada dos pais no Porto de Santos.

 

Que teve caminhão que rolou nas ribanceiras da região e morreu gente, antepassado de vocês.

 

Não pensem que as pessoas vão se contentar em ver o vereador caxiense ser cassado.

 

Queremos ver o pagamento por danos morais coletivos, e que este dinheiro seja investido em PESSOAS.

 

Queremos que os recursos do SESI, SESC, SENAC sejam gastos, como era no passado, com as pessoas para que possam ingressar com dignidade no mundo do trabalho regional.

 

Vossas cartas não bastam. Algumas são emendas piores do que soneto de “tiazinha”.

 

Vocês querem mudar? Vocês podem mudar. Mas é preciso ter humildade.

 

Não pensem que isto vai passar como uma “gripezinha”. Não, porque vocês foram inoculados com algo que vos tornou insensíveis, algo que tem que ser extirpado com fórceps.

 

(**) ADELI SELL é professor, escritor e bacharel em Direito.




(*) "Garafon" escrito assim, é a real pronúncia dos "gringo". Por isso, muitos sofreram bullying. Estes nossos artigos não são uma provocação, nem um desdém, pelo contrário: a gente só quer ajudar.


22 de janeiro de 2023

Pinocchio, Mentira e Verdade Ou Eu minto muito, mas sempre mostro as provas.

Luiz Carlos Vaz (*)


Pinóquio por Enrico Mazzanti - Florença – 1883


Que nome lhe darei? - disse para si mesmo –

Quero chamar-lhe Pinóquio. O nome dar-lhe-á sorte.

Conheci uma família inteira de Pinóquios.

Pinóquio o pai, Pinóquia a mãe e Pinóquios os meninos e todos estavam bem.

O mais rico deles pedia esmola.


Geppetto



As chamadas - Verdade e Mentira, eu creio que nasceram juntas, são gêmeas bivitelinas; só não sabemos qual delas terá visto a luz do mundo real primeiro. Imaginem comigo a primeira a nascer dizendo à outra:

“Olha, aqui fora há uma luz muito forte!

Então a segunda teria respondido perguntando:

Mas...isso é verdade ou mentira?”


Já uma lenda do século XIX, conta que as duas, a Verdade e a Mentira, foram tomar banho juntas. A Mentira diz à Verdade: “Hoje está um dia maravilhoso!” A Verdade olha para os céus e suspira “Sim!”, pois o dia estava realmente lindo. Elas caminham juntas durante um tempo e chegam finalmente a um poço. A Mentira diz à Verdade: “A água esta muito boa, vamos tomar um banho juntas!” A verdade, mais uma vez desconfiada, testa a água e percebe realmente que ela está muito boa.

Elas se despem e começaram a tomar banho. De repente, a Mentira sai da água rapidamente, veste as roupas da Verdade e foge. A Verdade, furiosa, sai do poço e corre para encontrar a Mentira e pegar suas roupas de volta, mas não consegue alcançá-la. O mundo então, vendo a Verdade nua, desvia o olhar, com desprezo e raiva. A pobre Verdade volta ao poço e desaparece para sempre, escondendo-se nele, com sua vergonha.

Desde então, a Mentira viaja ao redor do mundo, vestida como a Verdade, satisfazendo as necessidades da sociedade, porque, em todo caso, o Mundo não nutre nenhum desejo de encontrar a Verdade nua...

Mas aí e uma é uma outra história...


“A Verdade saindo nua do poço”, Jean-Léon Gérôme, 1896.


 ...e eu quero falar é de Pinóquio, grafado assim em português. Pinóquio – em italiano Pinocchio, personagem que ganhou o mundo a partir da primeira edição, em 1883, do romance As aventuras de Pinocchio, escrito por Carlo Collodi; desde então a história recebeu inúmeras versões, em praticamente todos os idiomas, e em todos os países. (Creio que isso seja verdade...)

A educação familiar, religiosa e escolar, sempre prezou por cobrar das crianças em formação atitudes verdadeiras, gestos verdadeiros e... a falar sempre a verdade, duela a quien duela, como disse um ex-presidente, numa tentativa de responder, em espanhol, a uma pergunta de um repórter argentino.

Mas... o que as crianças sempre perceberam nos adultos? Muitas mentiras e poucas verdades, é claro. Tá bem, não me falem das exceções, plis! (agora sou eu me expressando em inglês, talkey?)

Somos criados no meio da Mentira e da Verdade. E não há um mais ou menos, tipo um Centrão dos Fatos, para abrigar uma terceira via entre elas. É verdade ou é mentira. “Não sei, só sei que foi assim!” foram as palavras que Ariano Suassuna colocou na boca de Chicó, no Auto da Compadecida. É tipo uma verdade, mas que não se sabe explicar como foi, onde foi, com quem foi, quando foi... como na máxima criada pela antiga imprensa norte-americana, a “lei” dos cinco Ws.

Aldyr Garcia Schlee, nosso maior escritor fronteiriço, gostava de dizer em palestras para estudantes, para espanto e chiliques da plateia adulta, “Todo escritor é um grande mentiroso! Só que ele, ao mentir, inventar, criar, imaginar, recebe o nome acadêmico e bonito de ficcionista!”

Pinóquio, a cada vez que mentia, lhe crescia o nariz. Aquilo era como uma maldição, um sinal de que o que estava dizendo era mentira. Ah!, e se a moda pegasse hoje? G-zus!

Nessa vaibe de mentira e verdade, comecei há algum tempo, uma coleção de “Pinóquios”. Comprei alguns na minha primeira viagem a Roma (e isso é verdade!). Depois fui ganhando outros e outros... Esta semana mesmo, recebi um do Gerson, meu primo do coração. E esse é um Pinóquio que tem história e afetos. Pertenceu aos filhos dele, quando eram pequenos... filhos que, certamente, ao contrário do brinquedo que ganharam, preferiam seguir o caminho da verdade, sem fazer relação alguma com o pequeno boneco de madeira.

Tenho com a verdade e a mentira uma convivência cordial, sem culpa. Quando escrevo, já disse disso isso num livro meu, publicado em 2021, por Edições Ardotempo, A História de Abel, que minto um pouco. Mas ressalto na minha frase lapidar: Eu minto muito, mas sempre mostro as provas.

Talvez a minha coleção de Pinocchios e Pinóquios, que fica sempre à minha vista, aqui onde escrevo, seja um sinal, um aviso, uma premonição, um tipo de alerta para mim.

Mas, daqui de onde escrevo, eu também vislumbro a minha frase preferida, desenhada numa caneca, que ganhei há tempos da amiga Eliana. Talvez seja o antídoto que preciso quando fico, como diz a Isolete, “enfeitando” muito as histórias que escrevo e conto aos amigos, seja aqui em casa, no café, no bar e pela vida afora:

"La vida no es la que uno vivió, sino la que uno recuerda, y cómo la recuerda para contarla."

Gabriel Garcia Márquez


Gracias, Gabo! Não estou sozinho nessa labuta de mentir bonito, escrevendo ficção, que é o nome de domingo da mentira.

O Pinóquio dos guris do Gerson agora está na minha coleção


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(*) Luiz Carlos Vaz é Fotógrafo, Jornalista, Professor e Escritor. Fez seus estudos de Pós Graduação em Memória Social e Patrimônio Cultural na UFPel, e pesquisa Arquivos Fotográficos Familiares. E, dizem, é um mentiroso de plantão.


25 de novembro de 2022

“Não quero para meu genro, mas quero jogando no meu time”

 

Fernando Freitas, Arquivo Pelotas 13 horas

“Não quero para meu genro, mas quero jogando no meu time” (*)

Luiz Carlos Vaz (**)

Luís Fernando Lessa Freitas era um excelente frasista. Mas não um frasista qualquer. Era um frasista bem humorado. Não quero com isso, claro, reduzir o Freitas a essa máxima. E para tanto conto com a inteligência de vocês. Não vou nem citar que ele era Jornalista formado pela UCPel, que dedicou sua vida à política e a cultura; que foi quem, em duas oportunidades, incentivou a criação - primeiro nos anos 60, e a recriação da nossa Feira do Livro, desta vez em 1977, e que dedicou toda a sua vida à outras atividades culturais da cidade onde nasceu e viveu... Não estou escrevendo a biografia do “velho Freitas”. Estou lembrando suas tiradas, quando, com o cachimbo ou um charuto no canto da boca, soltava algo assim: “Meu velho, ainda vão inventar uma vacina contra a AIDS, mas contra a burrice, não!”

Filho de Bento Freitas, era, claro, um Xavante de todos os costados, e dizia: Só torço por três times, e todos com começam com a letra b: Brasil, Botafogo e Barcelona. E, sobre futebol, possuía um currículo invejável. Tinha, por exemplo, assistido o “dos uno” no Maracanã...

De quatro em quatro anos, como a maioria dos brasileiros, escalava seus jogadores para a Seleção! E, claro, não deixava de fora nenhuma vedete, nenhum bobalhão, ninguém que, fazendo gols, garantisse mais uma conquista para o Brasil. Então fico imaginando o velho Freitas escalando para esta Copa do Qatar jogadores como o analfabeto político e sonegador de impostos - aqui e lá fora, Neymar, e repetindo uma de suas frases preferidas sobre vááários jogadores durante anos a fio: “Não quero para meu genro, mas quero jogando no meu time”.

Bom jogo a todos. Vou torcer pela nossa Seleção, pelo Tite, pelo Brasil! E vou vestir a “Camiseta Canarinho do Schlee”. Phoda-se o Neymar e suas peripécias financeiras, musicais, políticas e sexuais. Eu quero saber é do Richarlison e da conquista de mais um Caneco!

 

Meu livro "A Taça do Mundo é Nossa", sobre uma "Camiseta Canarinho do Schlee"


Ah! E em respeito ao “direito de autoterminação dos povos”, durante o jogo vou beber só chá!

Dá-lhe Brasil sil sil sil

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(*) Frase de Luís Fernando Lessa Freitas, que nos deixou aos 74 anos, em 2001. 
(**) Luiz Carlos Vaz é Jornalista, Fotógrafo, Escritor e Editor deste Blog

14 de novembro de 2022

Sábado

 

Montagem com fotos publicadas em vários perfis das redes sociais


Jorge Santos (*)

    Noite de sábado, não dá prá ficar em casa. Olho a rua pela janela e assisto a chuva que rola mansamente pelo telhado. A mãe já está dormindo. Nos pés, calcei uns tênis de lona, não sei se saio, não sei se fico. Mas a chuva é fina, acho que vai dar prá encarar. Passei no Kanto Kente, ontem, comprei uma calça Gledson de brim delavê e uma camisa Levi´s bem legal. A vendedora Cátia disse que combinam com meu All Star azul-marinho. Já passa da meia-noite, a vinheta da Globo indica que a Sessão Coruja está começando e eu ainda em casa.

Daqui a pouco passa o Cohab Linha 2 da meia noite e trinta e vem cheio. A  turma do bairro não vai se importar com essa chuvinha. Vou passar um perfumezinho, acho que o Denin tá bom. Tem Água da Fonte no Círculo Operário Pelotense e o San Remo toca no Planalto, dúvida cruel. Vou descer do ônibus na Deodoro esquina com a Voluntários, caminho até o Calçadão da Andrade Neves prá tomar uma caipirinha no Forno. Lá eu resolvo. Acho que vou até Círculo Operário curtir o Água da Fonte. Aquela mina canta muito. O ônibus tá chegando, hora de partir.

Como imaginei a turma da Cohab-Tablada não se assustou com a chuva fina que cai e o ônibus está lotado. Quase todas as janelas fechadas por causa da garoa. O cheiro no interior de um ônibus em um sábado à noite não é o mesmo cheiro de uma sexta-feira à tardinha. As gurias da Tablada, sempre muito cheirosas, capricharam. Os perfumes de sabonete Phebo, de Neutrox, de Almíscar e do Patchouli se misturam no ar.

Opa, já estamos no Centro. O cheiro de filé e cebola na chapa invade o coletivo. É a Bento. Vontade de descer e comer um bauru. Mas, ainda é muito cedo. Se sobrar uma grana, mais tarde, quem sabe? ...Nunca sobra. Desço na esquina da Deodoro com Voluntários e sigo em direção ao calçadão. A noite está feia, a umidade escorre pelas paredes escurecidas pelo cimento penteado, mas aqui no Centro não chove.

 Em frente a um prédio antigo com a parede amarela e um luminoso de neon com defeito encontro com Veridiana. Me contaram que ela já foi Rainha em um clube em Pedro Osório ou Dom Pedrito, não lembro direito. Veio prá Pelotas cursar faculdade e arrumou um trabalho nessa casa. Um tubinho preto muito justo, todo em couro, cobre seu corpo magro até um palmo acima do joelho. Nos pés, ela calça uma bota preta com um salto médio, também de couro, marca Catleia número 36 (fui eu quem vendeu). Lembro-me dela sentada na poltrona da loja com uma minissaia bem curtinha e eu ajudando a calçar a bota com o nariz a um palmo de seu joelho. Uma gabardine clara desabotoada na frente a protege do frio e da chuva fina. Na cabeça, um pequeno chapéu de abas curtas e plumas coloridas.

-E a bota ficou boa?

Ela me olha, sorri, traga um fino cigarro e responde ao mesmo tempo em que solta a fumaça;

-Claro, olha só!

Ela compra roupas caras para seu trabalho e trabalha muito para pagar essas roupas. Sigo meu caminho.

Na esquina da Osório, saindo da Padaria Antônio Maria, ouço a voz do meu amigo Mário:

-Jorginho, prá onde vais?

-Círculo Operário. Vamos nessa?

-Claro que não, vou pro Chove. Lá tem concurso de Break.

Durante a semana o Mário tem o cabelo curto, rente à pele da cabeça. No sábado à noite o cabelo vira black power. Não sei como ele faz isso. O meu amigo coleciona LPs de Black Music, prêmios conquistados nesses concursos de dança.

Entro no Forno, não há ninguém conhecido. A lancheria esta quase vazia. Não vou ficar. Mais adiante, um amigo de infância que não vejo há um longo tempo vem ao meu encontro: o Gerinho.

-Gerinho? Nunca mais te vi.

-Claro, Jorge, fui prá São Paulo ficar famoso.

-Ha,ha. E conseguiste?

-Mais ou menos. Vim ver minha mãe e volto segunda.

-Legal. Prá onde vais a essa hora?

-Num lugar chamado Misturança. Conheces?

-Já ouvi falar. É só dobrar na Quinze, no meio da quadra.

-Vem junto?

-Não! Melhor, não. Boa noite.

O Gerinho tem quase um metro e noventa de altura e ainda caminha sobre um Scarpin com quinze centímetros de altura. Ele dobra a esquina e desaparece. Talvez a gente nem se veja mais.

Logo à frente avisto duas garotas que devem ter entre dezesseis e dezoito anos. Vestem jaquetas e minissaias de couro, calçam coturnos, usam correntes penduradas pelas roupas e tingem os cabelos de roxo, verde e vermelho espichados para cima. Aproveitam o escuro da rua para pichar uma parede recém pintada com os dizeres: ''OS NAJAS''. Conheço essas minas do calçadão. De dia são bem comportadinhas.

Já ouço o som do contrabaixo. Aos poucos, a voz da cantora começa a surgir à minha frente. Pouca gente em frente ao clube. Muita gente lá dentro. Pego o ingresso e entro. As luzes do conjunto e um globo giratório no centro do salão diminuem um pouco a escuridão.

Como diz o Lulu: Todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite.


(*) Jorge Santos é morador da Praia do Laranjal, é meu amigo, e seguido publica “nas redes” uma série de crônicas que tem o título geral de Histórias do Jorgito. Isso vai virar um livro, ah vai!