5 de maio de 2026

1969 manda lembranças

 

Foto por G.Hasse



Geraldo Hasse (*)

                Se esse livro fosse exposto numa livraria – não foi planejado para tanto –, os leitores poderiam pensar na queda de um avião ou, observando a foto da capa, imaginar o desabamento de um prédio. Nada disso. “A Queda do 1704” conta uma história de outubro de 1969, quando a morada de um grupo de estudantes num apartamento (o 1704) do Edifício Minister, na Rua das Palmeiras em São Paulo, foi alvo de uma implacável operação desfechada por policiais do Deops. Os “home” queriam prender e interrogar um certo Flavio, “liderança em ascensão no meio estudantil”, o qual fazia parte da organização de um congresso estadual de secundaristas – uma reunião supostamente premeditada para dar uma resposta à repressão vigente desde a assinatura do AI-5, em dezembro de 1968. Não encontrando em casa o suspeito de subversão, os policiais prenderam as três pessoas que se encontravam no local no momento da batida. Ou, seja, pegaram a metade dos habitantes do “aparelho”, entre eles um menino, irmão do procurado.

                Numa campana que se estendeu por duas semanas, foram detidas todas as pessoas que subiram até o 1704, onde costumam se reunir amigos de São José do Rio Preto, a terra natal de vários estudantes, inclusive de Maria Angela Ziroldo, 20 anos, estudante de jornalismo na Cásper Líbero. No total, “caíram’’ umas trinta pessoas, até uma lavadeira que fora lá entregar umas roupas. Todas foram fichadas, fotografadas e interrogadas. Algumas foram liberadas após algumas horas e outras ficaram depondo e apanhando para confessar sabe-se lá o quê. Maria Angela, a autora do livro, ficou detida por 15 dias e afirma só ter levado uns tapas. Outros foram torturados sem piedade. Quanto ao suposto alvo principal, nunca mais foi pego. Só seria encontrado em 2025, depois que a autora do livro contatou todas as pessoas envolvidas naquela loucura dos primeiros anos da década de chumbo. Foi uma busca de semanas que acabou por garantir um fecho satisfatório para a história. E que história! No final, a maior surpresa: o suposto subversivo-mór se tornou  empresário autônomo. 

                Enxuta, a narrativa começa despretensiosamente com uma visita ao prédio sinistro em outubro de 2024, ou seja, 55 anos depois dos acontecimentos. O Edifício Minister ainda estava lá com seus 25 andares, mas o porteiro não autorizou a entrada da ex-moradora, ali postada para uma visita sentimental ou um reencontro com fantasmas de um passado sombrio. Se vacilou, ninguém sabe, se cambaleou, ninguém viu: o fato é que a repórter veterana teimou em resgatar essa história que não teve tiros nem mortes, mas que retrata uma época de arbítrio e prepotência desvairada.

                Com paciência e determinação, juntou o que havia sufocado na própria memória, foi atrás das antigas moradoras e frequentadores da república e fez uma reconstituição emocionante, juntando tudo num livro feito às suas expensas e o apresentou numa tarde de sexta-feira no Memorial da Resistência, instituição que ocupa a antiga sede do Deops, no centro histórico da capital paulista. Surpresa: em vez de meia dúzia de gatos pingados, o auditório esteve lotado por sobreviventes da história, amigos, filhos, netos das vítimas da repressão. E foi isso, sem alarde nem resenhas na imprensa. Uma prestação de contas, que pode servir de estímulo aos que tiverem lembranças válidas para a construção da História. 

                Não sei quantos exemplares foram impressos, mas tenho certeza de que Maria Angela Ziroldo, ex-repórter de Veja e ex-redatora-chefe da revista Cláudia, eterna militante do humanismo cristão, fez a lição de casa, contando com precisão e carinho uma história que se junta a milhares de outros relatos escritos para denunciar a ditadura e seus métodos. Embora não tenha sido feito para alcançar as livrarias, “A Queda do 1704” merece constar na bibliografia sobre os primórdios dos anos de chumbo. E bem que poderia cair nas graças de um editor sem medo de ser feliz.

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(*) Natural de Cachoeira do Sul, Geraldo Hasse é Jornalista formado em 1968 pela UCPel; começou a trabalhar em 1965 como noticiarista de rádio. Foi repórter e editor de Veja (1969-78), Exame (1978-82), Folha de S. Paulo (1984), Placar (1984-85), Guia Rural (1988-91), Gazeta Mercantil (1999-2001). Dirigiu a redação do Diário da Região, de São José do Rio Preto (1993-96). É autor de vários livros e já teve alguns textos seus publicados aqui no Blog.