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| Foto: Luiz Carlos Vaz |
Luiz Carlos Vaz (*)
Nas favelas, no senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação
Renato Russo
(Renato Manfredini Júnior) em 1987
Eu não
lembro bem dos detalhes, logo eu, hein? Mas recordo claramente que eram umas
oito horas da manhã, fui tomar banho, e dois minutos depois a água ficou em
temperatura ambiente. Por “ambiente”, fique claro, o ambiente da rua, numa
manhã primaveril, fria... A resistência não resistiu!
Olha, quem
inventou o “banheiro social” deveria ganhar algo como um Nobel de Invenções Inúteis que, quando são úteis, tornam-se
fundamentais. Há uma semana já havíamos ficado sem energia elétrica por 54
horas, quando passamos a usar muito a velha chaleira para aquecer a água para o
mate, e se podia filar o banho na casa do cunhado, aqui perto... Mas,
convenhamos, a possibilidade de visitar alguém num domingo de manhã, antes das
9 horas, enrolado em uma toalha, seria até uma anedota. Por isso, um Nobel,
rápido, ao criador de um segundo banheiro nas casas!
Perfumado
como para ir casar, conferi meu documento de cidadão, e fui, a pezito no más, até minha secção
eleitoral. Não havia bicha, só uma senhora
à porta, já por ser chamada para cumprir sua obrigação cívica. Mas, nas outras
“mesas” que funcionavam no mesmo prédio daquela escola, as filas eram enormes,
pois eram seis votos, para cinco funções diferentes. Haja concatenação de
memória! Por isso a cola era
fundamental e aconselhada pela própria Justiça Eleitoral. A imagem na tela das
urnas era bem clara, e um som guiava teus passos, nesse caso, teus dedos e,
para os deficientes auditivos, figuras em LIBRAS mostravam as etapas do voto ao
eleitor.
Pililililim, pililililim e...
Próximo da fila!
Eram
centenas de pessoas indo e voltando, chegando e saindo, deixando para mais
tarde, conversando sozinhas, em silêncio, falando com o olhar, segurando a sua
“cola” na mão e, por vezes, já usando como protetor solar da luz do sol que,
aos poucos, aparecia meio sem vontade. Tudo isso enquanto um Caramelo,
literalmente, também sacudia a sua cola. A verdadeira.
Bati uns
retratos, bem de longe, cuidando para não constranger ninguém, registrando em
imagens aquela função toda. O Brasil estava começando a eleger, entre outros
mandatos políticos, o seu próximo Presidente. Para essa criançada de hoje, as
do século XXI, parece uma coisa natural fazer isso de quatro em quatro anos.
Mas, aos 12 anos, eu soube que meus pais, meus tios, meus vizinhos, meus
professores, meus conterrâneos, os gaúchos, enfim, todos os brasileiros, não
poderiam mais fazer isso. E era difícil para um menino que recém entrara para o
Ginásio entender o motivo... O Ginásio é equivalente à 6ª série do Ensino
Fundamental de hoje. Por isso, se um professor estiver lendo esse texto,
procure imaginar seus alunos de 6ª série - de hoje - sem face, sem tiquetoque,
sem instagram, sem uátis, sem emeil... ah! e nem o Orkut, certo?
Quando votei
pela primeira vez para Presidente eu já estava com quase 40 anos... Hoje, a
meninada com 16 anos já pode escolher seu vereador, seu deputado estadual e federal,
seus senadores, o prefeito, o governador e... o Presidente da República! E,
embora o voto seja obrigatório até antes de completar 70 anos, muitos não comparecem
às urnas, mas depois precisam pagar “uma pesadíssima multa” de pouco mais de
três pila. Exatamente R$ 3,50 - três reais e cinquenta centavos pelo não
comparecimento às urnas. Ufa, que despesa! Muitos, para não terem que dar
explicações da sua ausência, comparecem e votam “em branco” ou anulam o voto,
ou seja, abrem mão de exercer o maior dever cívico de sua condição de cidadão
de um país.
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Já era quase
noite, eu ainda devia estar cheiroso, quando os resultados do chamado Primeiro
Turno foram proclamados. Meu deputado Estadual comemorava sua reeleição e meu
candidato a Presidente fora para o segundo turno. Só.
A resistência
não resistiu!
A vitória
das redes, chamadas sociais, estava ali, na tela da tevê. Então eu faço a mesma
pergunta que Renato Manfredini Júnior nos fez em 1987:
Que
país é esse?
(*) Luiz Carlos Vaz é Jornalista, Fotógrafo, Escritor e
Editor deste Blog









