Conforme prometi, em resposta a um comentário da Léli na postagem do dia 8 de março,
Olha o passarinho!, estou publicando um artigo que escrevi ainda quando era aluno do
Mestrado em Memória Social e Patrimônio Cultural, do ICH/UFPel, e que foi publicado em março de 2009 no
Jornal Amanhã, de Jaguarão. Ele faz parte de uma série que denominei de "A década sem memória", em virtude do risco que corremos de ficar sem registros de imagens para o futuro deste tempo que tem o predomínio da fotografia digital. As fotos do nosso tempo do
Estadual que têm ilustrado as matérias do Blog, tenho certeza que permanecerão nas "caixas das vovós" por muitos anos ainda. As fotos digitais que tomamos hoje... não sei não se ainda as teremos no ano que vem!
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Em 12 de dezembro de 1942, o soldado ainda noivo,
pensa na convocação da FEB e na noiva que deixaria em Hulha Negra...
(foto da "caixa de sapatos" da Vovó Loracy)
A Caixa de sapatos da vovó
Luiz Carlos Vaz (*)
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"Nunca se fotografou tanto. Nunca tantos tiveram tantas máquinas. Nunca foi tão fácil e barato fotografar. Nunca corremos um risco tão grande de perder a memória. Dizer tudo isso parece uma contradição. Mas não é. A mesma modernidade que nos trouxe a popularização da fotografia, como queriam seus criadores, um século atrás, também colocou uma dose de vulgarização no ato de fotografar. Chega a ser irritante, quando em qualquer lugar público, num momento solene, saltam dezenas de máquinas digitais, telefones celulares e outros equipamentos, ditos também “fotográficos” e, numa sequência de zunidos e cliques de toda a ordem, o silêncio obsequioso da hora é quebrado pela movimentação de uma parafernália indescritível de equipamentos que servem “para fixar a imagem”. Correto, fixar a imagem. Mas por quanto tempo? Em que tipo de suporte? Nesse momento é que nossa memória começa a correr o risco de desaparecer. Os suportes digitais preservam as imagens enquanto alguma coisa mais interessante e atual não exigir a limpeza do HD ou do chip onde estava guardada uma imagem, dita importante, feita há algum tempo atrás. Não se tem mais o costume de copiar, ou modernamente, imprimir as fotografias. As velhas caixas de sapatos, com os retratos do tempo da vovó, é que continuarão a ser por muito tempo a referência de nossas lembranças fotográficas. As fotografias coloridas dos anos 70 já perderam a cor e, quem sabe, boa parte das informações. Quando, nos anos 80/90, o processo ganhou legitimidade e definição fotoquímica “saiu de moda”. As fotos digitais tomaram conta do mercado – e o mercado somos nós – e abandonamos as máquinas fotográficas convencionais e os processos químicos de revelação em papel. Dependemos agora de um complicado código de “zeros” e “uns” que guardarão (?) as imagens de hoje desde que respeitadas as condições apropriadas para conservação dessa nova mídia. A verdade é que ainda temos em casa “slides kodak” mas não temos mais projetor e lâmpada. Temos fitas VHS e não temos mais um videocassete com cabeçote sem mofo. Hoje temos os HDs, as câmeras digitais, os celulares com seus chips... e onde estão nossas fotografias? Somente nas memórias deles ou já copiamos em papel? Mas, vejamos bem, quantas centenas de fotografias já tomamos com nossas digitais? Vamos imprimir todas elas? Com certeza não! A caixa de sapatos da vovó, que guarda retratos quase centenários, é que continua sendo o único lugar seguro onde, com certeza, nossa memória visual ficará, ainda por muitos anos, preservada. Cuide da sua caixa! Vovó, e nossa memória, vão ficar agradecidas."
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Março de 2009.
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(*) Jornalista, fotógrafo e mestrando em Memória Social e Patrimônio Cultural do ICH/UFPel
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Artigo publicado no jornal Amanhã, de Jaguarão, dia 18 de março de 2009, na coluna Patrimônio cultural, cidade e memória, de Alan Dutra de Melo.
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