16 de setembro de 2010

Uma República no Pampa - IV, Netto perde sua alma (*)

Mausoléu do General Netto no Cemitério de Bagé
(foto de Elaine Bastianello, 2006)

Sepultamento dos restos mortais de Netto, em 1966
(arquivo de Jorge Reis, 1966)
No Cemitério de Bagé um dos túmulos mais procurado para visitação é o de Antonio de Souza Netto, o general que proclamou no campo dos Meneses, em Seival, a República Rio-grandense, e que lutou também na Guerra do Paraguai. A família do General Netto foi uma das primeiras a enterrar seus mortos no Cemitério da Santa Casa de Bagé, possuindo ali um dos túmulos mais antigos.
Mas não foi por aqui que ele perdeu a sua alma. Quem nos conta isso é a nossa colega e professora do Estadual, Elaine Bastianello.
“Em maio de 1866 o General Netto foi acometido de uma enfermidade e acabou falecendo no dia 1º de julho, no hospital de Corrientes, na Argentina, onde estava internado. Seus restos mortais foram deslocados por três vezes. Trazido de Corrientes para Bagé, foi inumado no jazigo-capela de sua família que fora construído poucos anos antes por suas irmãs Floriana Marques Netto e Bernardina de Mattos Netto. Mais tarde suas filhas Teotonia Netto e Maria Antonia Netto Mendilaharsu, residentes no Uruguai, transferiram seus restos mortais para Montevidéu.
No ano de 1936, ainda no espírito das comemorações do Centenário Farroupilha, comemorado em 1935, iniciou o movimento de repatriação de seus despojos. Sua filha Maria Antonia autorizou o traslado devolvendo então seus restos mortais ao cemitério de Bagé.
Contudo, foi necessário aguardar os festejos de seu Centenário, em 1966, para retomar estes planos, recuperando o espírito de reverência à memória pública do General Netto.
Passado muitos anos o historiador Tarcísio Antônio da Costa Taborda, dirigindo-se à Câmara Municipal de Bagé, informou que havia sugerido ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul que promovesse a transladação dos restos mortais do General Netto do cemitério de Montevidéu para o mausoléu existente no cemitério de Bagé. Taborda contou com o apoio da Câmara de Vereadores de Bagé que, por ofício, entrou em contato com os descendentes do General Netto pedindo oficialmente permissão para o translado. Assim, definitivamente, o General Netto ganhou descanso, sendo inumado num precioso mausoléu no Cemitério da Santa Casa de Bagé.
No registro fotográfico da cerimônia aparecem o Prefeito Municipal de Bagé, José Wilson Barcellos, e o Coronel Heitor Fontoura de Morais.
Ali foi novamente inumado, mas não mais no jazigo-capela de sua família, mas sim, em um jazigo perpétuo encomendado por ele mesmo para eternizar a sua memória
Assim, há quatro décadas, os restos mortais de Netto repousam num mausoléu que foi construído especialmente com esse fim. A edificação fúnebre apresenta uma mistura de arquitetura tumular cristã e laica. O túmulo está encimado por uma escultura de significação ambígua: trata-se de uma figura alada, que pode receber interpretações distintas – um anjo, com as mãos junto ao peito, fazendo o gesto cristão da oração, ou uma alegoria pagã, com os cabelos cobertos por um lenço, e as pernas expostas de maneira inconveniente à iconografia cristã, com certa sensualidade.
O monumento está flanqueado por duas musas, em estilo clássico. Desta forma, entendemos que o túmulo do General Netto pode nos trazer uma mensagem indissociavelmente vinculada à memória de herói. As figuras das musas colaboram para o sentido de heroização: uma delas o heroiza pela sua força como um homem público, um herói farrapo, que sempre se fez presente nos campos de batalha; a outra, pela sua sabedoria e inteligência. O seu jazigo constitui, portanto, uma manifestação cultural tumular edificada para guardar as memórias da identidade de herói, de guardião da pátria, de portador de sabedoria. Enfim, esse jazigo anuncia o prólogo da construção da sua imortalidade.”
Elaine Bastianello,
Ms em Memória Social e Patrimônio Cultural
(*) Título do livro do escritor uruguaianense Tabajara Ruas.
O livro foi transformado em filme, em 2001, e é dirigido por ele e Beto Souza.

3 comentários:

Ana Maria Ribeiro disse...

Cumprimentos ao BLOG pelas postagens que nos trazem passagens importantes da história dos bravos revolucionários, bem como do reconhecimento por seus descendentes e das ações mais recentes em prol da memória deste povo heróico.
Pretendo visitar o túmulo do Netto a partir deste post. Certamente irei lá na minha próxima vista a Bagé.

Vaz disse...

Ótimo, Ana Maria. O Cemitério de Bagé está sendo "descoberto" por pesquisadores da região, e do resto do país, e vários trabalhos de mestrado e doutorado já utilizaram seus registros e sua arquitetura. Um exemplo é a pesquisadora - ex-aluna e atual professora do nosso Colégio Estadual, Elaine Bastianello.

Aldo Ghisolfi disse...

Salve!
Participei da recepção dos restos mortais do General Neto. Foi algo grandiosamente merecido. Na foto, o prefeito e o então Coronel Heitor Fontoura de Morais, hoje honradíssimo General residindo em Jaguarão. (aldoghisolfi@gmail.com)