A menina, olhava sem entender
o papel nas mãos do pai.
Segundo ele, era agora
brasileira e nascida em Alegrete.
Como um simples papel
poderia tirar seu poder?
Havia custado tanto
aprender a palavra opção!
Teria o direito de
optar por sua cidadania aos dezoito anos.
Seu pai dissera! Ela,
que se julgava de ‘Santana’,
ouvira em conversa de
adultos, que nascera em Montevidéu,
e poderia - apitar? -
por seu país quando fosse maior.
Sentia-se poderosa.
Com o destino nas mãos.
E agora?
.
— Filha vivemos
o pós-guerra. Fui transferido para Fernando de Noronha. Não há tempo. A
certidão nas mãos do pai gritava: brasileira e alegretense. Seu poder desceu ao
calcanhar. Levou junto a auto-estima. Chorou, berrou, sapateou, bateu com a
cabeça na parede. Entre soluços: pai, tu disseste que eu escolheria! Mentiste
para mim! Fato consumado. Não poderia mais optar. O pós-guerra escolheu. Apitaram
por ela.
Em Vila de
Coimbra (Mato Grosso), inaugurava oito anos quando ouviu de seu pai: há vaga em
Florianópolis e Bagé. Escolhi Bagé, no Rio Grande do Sul.
— Gaúcho é
bairrista! Deixar uma capital por aquela cidadezinha. Servi lá. Seu nome lembra
um índio: Ibagé. Seria agradável se não fossem as moscas. Bagé é a cidade da
mosca! Pontificou o colega baixinho, atarracado. Por que seu pai ia para
lugares tão fora do comum? Coimbra em pleno Chaco tinha nuvens de mosquitos.
Bagé teria nuvens de moscas? Sonhou que era levada por um batalhão delas.
Acordou chorando.
Em tarde de
fevereiro a menina chega a Bagé pelo Trem da Fronteira. Esperando um enxame de
moscas desce apreensiva do vagão. Encontra gare espaçosa, movimentada e limpa.
Atravessa correndo o saguão. Pára perplexa — invadida por luminosidade azul
brilhante. Em frente à Estação, a praça. Uma praça grande e simpática, cujos
plátanos gigantes parecem filtrar toda luz do mundo no ofertório do pôr-do-sol:
malvas, lacres, lilases, púrpuras e laranjas se entrelaçam e beijam. Bebe
beleza pelos olhos arregalados. Fica extasiada. A um sinal do pai, move-se, do
outro lado, carro puxado a cavalos. Diligência? Carruagem! Tirada por seis
cavalos brancos ajaezados de ouro e penachos vermelhos. Ela, princesa com tiara
de brilhantes nos loiros cabelos cacheados, prepara-se para entrar. O pai
intervém: vai a bagagem. Iremos a pé, é só atravessar. Quase em lágrimas,
retruca: Vou de carruagem! O cocheiro que poderia ser psicólogo, não fosse avô:
deixe-me levar a princesinha, enquanto os senhores e o menino desfrutam a
frescura da praça. Galantemente oferece-lhe a mão. Acomoda-se nos macios
coxins. Lenta e majestosamente contornam o largo.
— Sua Alteza
gosta da nossa Rainha?
— Que Rainha?
— Bagé! Por sua beleza nossa cidade é chamada Rainha da Fronteira. Fecha os olhos. Vê-se princesa índia. Filha da Rainha da Fronteira com o Índio Ibagé. Decide: esta é a minha cidade. Quem se julgava nômade e sem Pátria, escolhe seu chão. Cria raízes instantâneas. Ao pararem, o cocheiro posta-se em ajuda a infante da corte. Salta princesa índia de lança em punho, com longo cocar azul a beijar-lhe os pés, gritando a plenos pulmões: sou de Bagé. Esta é a minha cidade! Antes que os atônitos adultos possam esboçar reação, pula em pêlo num cavalo tão negro quanto sua cabeleira e saiem disparada. Cavalga pela praça entoando canto de vitória — Iá, Iaaáá. Sou de Bagé. Iá, Iá, Iá . Sou de Bagé. Iá, Iaaáá! Crava, com único golpe, firmemente sua lança ao solo. Cai de joelhos. Abarca grande porção de areia que joga para o alto. Nesse batismo — primitivo, selvagem e solene — readquire seu poder.
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publicada no jornal eletrônico Rio Total,
e enviada ao Blog pelo colega Jerônimo
- o irmão da professora Sarita.
.

9 comentários:
Sarita Barros; Sarita Terra; Como é bom saber escrever. Lindíssima; Parabéns.
Vaz!
você se superou, mesmo.
Onde foi encontrar essa foto com a carruagem? Excelente.
Sarita tem um amor muito grande pela nossa "Rainha da Fronteira".
Ela e a Sônia Alcalde (um ícone do movimento cultural de Bagé/Patronese da XII Feira do Livro)realizaram o Festilenda. Um festival de contos e poesias sobre as lendas de Bagé. Movimentou a cidade e resgatou sua história.
Um abraço!
Jerônimo!
Beleza de texto, parabéns à autora.
No canto à esquerda se vê, mal mas é ela, a enorme magnólia que seria derrubada na década de 70.
Abraço
Gerson L. B. Oliveira
Jerônimo, e a carruagem está em frente ao (futuro) ESTADUAL...esse é o detalhe curioso! A foto pertence a um conjunto que me foi enviado pela Dóris Schuch.
E o Gérson, claro, sempre lembrando da fantástica Magnólia da "Padaria Sul Brasil", ou "Esquina Bianchetti", para os mais novos...
Gurisada medonha! Fizeram a véinha se mexê!
Agradeço ao Pedro, Gérson, Jerônimo,Olmiro,Vaz e Ézio (que me enviou este endereço e autor do belo texto A MODÉSTIA DA RAINHA)
Vaz, este blog está muito bom, veio preencher uma lacuna. A gente nota o teu carinho em cada detalhe.
Lembro da padaria quando ficava na esquina onde agora está o prédio do Aracely. No recreio a gente pulava o portão que separava o Espírito Santo do São Francisco para comprar bicicleta quentinha na padaria. Um dia a Irmã Fidélia nos pegou e foi aquele auê! Depois que ela foi para onde é o Nacional,não deu mais...
Abraços,
Sarita.
Complementando: aquela magnólia era mesmo um monumento! Deveria ter sido tombada, assim como merece ser preservado aquele plátano do Dr.Contreiras. A foto foi um achado! Creio até que é anterior à padaria, pois as colunas à esquerda dão a impressão que estavam no lugar onde seria construída a Esquina Bianchetti. Será?
Särita Bárros.
Oi Sarita! Prazer em "vê-la" por aqui!!! Acho que podes mandar mais uns textos para o Blog... E fotos? Deves ter vááárias... Que achas? Tens que te tornar uma seguidora do nosso blog. Abs, Vaz.
Amiga Sarita, o seu amor por Bagé nos entusiasma e nos dá inspiração
para poetizar a Rainha.
Sarita Barros no blog Bagé e suas raízes:
http://bagealemfronteira.blogspot.com/2007/12/bag-e-suas-raizes.html
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